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Golpes digitais no Brasil seguem roteiro previsível: Pix, marcas conhecidas e fatos reais distorcidos

Segunda edição do relatório "A Jornada dos Golpes", do Observatório Lupa, revela que fraudes online obedecem a padrões estáveis e recorrentes, o que abre espaço para prevenção mais eficaz

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Pix é o pagamento instantâneo brasileiro. Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
Pix é o pagamento instantâneo brasileiro. Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Eles mudam a embalagem, mas raramente o conteúdo. É essa a principal conclusão do relatório A Jornada dos Golpes, segunda edição divulgada nesta quarta-feira (17) pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa. Baseado na análise de 115 conteúdos fraudulentos virais que circularam no Brasil entre maio de 2024 e abril de 2026, o estudo revela que os golpistas online operam com estratégias repetitivas, previsíveis e cada vez mais ancoradas em elementos reais, o que torna as fraudes mais difíceis de identificar, mas também mais fáceis de mapear.

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Pix, promessas financeiras e marcas sequestradas

A combinação mais recorrente identificada pelo relatório é também a mais eficaz na captura de vítimas: promessa de ganho financeiro, aparência de legitimidade e pagamento via Pix. Cerca de um terço dos golpes analisados exigia transferências exclusivamente pelo sistema de pagamento instantâneo. Os valores cobrados eram apresentados como taxas necessárias para liberar benefícios, promoções, brindes ou indenizações que simplesmente não existiam.

Ao todo, 71% dos conteúdos fraudulentos prometiam algum tipo de vantagem financeira, enquanto 74% se apoiavam na credibilidade de empresas ou personalidades conhecidas para dar aparência de legitimidade às fraudes. Mais de 15 marcas do varejo, setor bancário, marketplaces e plataformas digitais tiveram seus nomes usados indevidamente. Mercado Livre e Nubank lideram as ocorrências, com quatro registros cada. Shopee, Serasa e Rede Globo também figuram entre as mais exploradas.

Além de empresas, jornalistas, médicos e influenciadores foram utilizados para dar veracidade às mensagens fraudulentas, muitas vezes sem qualquer consentimento ou conhecimento.

A estratégia da distorção: partir do real para enganar

Um dos achados mais significativos da pesquisa é a escalada do uso de informações verdadeiras como matéria-prima para fraudes. Em 66% dos golpes analisados nesta edição, os criminosos partiram de fatos reais para construir narrativas enganosas, um salto em relação aos 55% registrados no período anterior.

Reportagens jornalísticas, comunicados oficiais, campanhas legítimas, decisões judiciais, programas governamentais e páginas institucionais foram adulterados para criar conteúdos que parecem autênticos à primeira vista. A pesquisadora responsável pelo estudo, Beatriz Farrugia, explica o mecanismo: a fraude não nasce de uma informação totalmente inventada, mas da adulteração de fatos verdadeiros, marcas reconhecidas ou notícias que já circulam na imprensa.

Essa estratégia torna o trabalho de identificação mais complexo tanto para usuários quanto para as próprias plataformas, já que parte do conteúdo é genuinamente verdadeiro.

Sazonalidade como ferramenta

O relatório também documenta o uso sistemático de datas sazonais e temas em evidência no noticiário para potencializar o alcance das fraudes. Promoções falsas, indenizações inexistentes, vagas de emprego fraudulentas, benefícios sociais fictícios e brindes supostamente gratuitos reaparecem ao longo do ano com pequenas adaptações contextuais, roupagem nova, roteiro velho.

Para Beatriz Farrugia, os criminosos não precisam criar golpes completamente novos para continuar fazendo vítimas: eles reutilizam estruturas que já funcionaram, adaptam a narrativa ao contexto do momento e se aproveitam da confiança depositada em marcas conhecidas, instituições e figuras públicas. A pesquisadora aponta que esse padrão, por ser previsível, abre espaço para ações preventivas mais eficazes.

Redes abertas, coleta no privado

A jornada típica de um golpe digital começa no ambiente público e migra para o privado. A maior parte das fraudes é iniciada em redes sociais abertas, Facebook, Instagram e TikTok são os principais canais de disseminação, e depois redirecionada para formulários online, onde ocorre a coleta de dados pessoais, e para aplicativos de mensagens.

O WhatsApp apareceu em quase 65% dos golpes do período mais recente analisado, consolidando-se como o principal ambiente de circulação de conteúdo fraudulento no país. A combinação de alcance massivo, ausência de moderação algorítmica equivalente às redes abertas e caráter de conversa privada torna o aplicativo um terreno fértil para esse tipo de fraude.

Plataformas monetizam golpes?

O relatório também lança luz sobre um dado revelador do lado econômico do problema. Em novembro de 2025, documentos internos da Meta tornados públicos pela imprensa indicaram que a empresa teria arrecadado cerca de US$ 16 bilhões em 2024 com anúncios relacionados a golpes e produtos proibidos, valor equivalente a aproximadamente 10% da receita anual da companhia. O caso, segundo o Observatório Lupa, ampliou o debate internacional sobre os mecanismos de fiscalização de anúncios e a responsabilidade das plataformas na prevenção de fraudes.

O que fazer

Beatriz Farrugia defende uma atuação coordenada entre empresas de tecnologia, instituições financeiras, órgãos públicos, veículos de imprensa e usuários para enfrentar os golpes online. Para a pesquisadora, os golpes digitais não são aleatórios: seguem padrões relativamente estáveis de narrativa, distribuição e monetização. Quanto melhor esses padrões forem compreendidos, maiores serão as chances de antecipar ameaças, reduzir vulnerabilidades e proteger os usuários.

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