A Escola Estadual Alberto Giovannini, em Coronel Fabriciano, no Vale do Aço, está no centro de uma disputa que se repete em dezenas de municípios mineiros: de um lado, uma comunidade escolar mobilizada em defesa de uma instituição com mais de seis décadas de história; de outro, um governo estadual que anunciou sua transformação em unidade do Colégio Tiradentes da Polícia Militar sem apresentar, até agora, qualquer diagnóstico técnico ou prazo concreto para a mudança.
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O governador Mateus Simões anunciou a transformação da E. E. Alberto Giovannini em Colégio Tiradentes durante agenda oficial em Coronel Fabriciano, em março. Na mesma ocasião, anunciou a mesma medida para a Escola Estadual Deputado Agenor Ludgero Alves, em Caratinga. O governador não forneceu detalhes sobre prazos nem sobre o processo de transição.
A Alberto Giovannini não é uma escola qualquer. A unidade atende 266 estudantes do ensino médio em tempo integral, com formação propedêutica e cursos profissionalizantes nas áreas de Desenvolvimento de Sistemas, Informática, Química e Segurança do Trabalho. A escola conta ainda com professores de ensino especializado e de apoio para alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras condições neurodivergentes.
“O melhor IDEB das escolas estaduais de Coronel Fabriciano é nosso”
Para o professor de Física Aganoel Gomes Cavalcante, que atua na escola, a proposta ignora anos de trabalho consolidado. “A proposta é lamentável, uma vez que desconsidera toda a história e o trabalho que vem sendo feito na Escola Estadual Alberto Giovannini ao longo de mais de 60 anos”, afirma.
Cavalcante cita os resultados do IDEB, Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, para sustentar sua posição. “O melhor IDEB das escolas estaduais de Coronel Fabriciano é nosso, o que mostra o excelente trabalho que vem sendo realizado pelos profissionais e o empenho e dedicação de nossos estudantes”, diz o professor, que também critica a forma como o anúncio chegou à comunidade escolar: “A base do integral é o protagonismo estudantil e foram tirando isso de nossos estudantes no momento que uma notícia dessas circula em uma página de humor da cidade, sem diálogo com a gestão, os professores, os estudantes e a comunidade escolar”.
Sobre as consequências práticas da mudança, o professor é direto: “Cursos como Segurança do Trabalho e Química, que possuem laboratório específico, podem ser encerrados porque não vão encontrar outra escola com esses laboratórios próximos à localidade de nossos estudantes. O momento é de muita tristeza e de muitos questionamentos sem resposta”.
Mãe de estudante autista convoca a comunidade
Entre os que mais temem a mudança estão famílias de alunos com necessidades especiais. Jaqueline Cândida Bandeira, mãe solo de dois filhos, um deles estudante com autismo na Alberto Giovannini, diz que vai lutar contra o fechamento. “Queremos que a lei seja cumprida, queremos justiça e queremos amparo para nossos filhos. Vou lutar e reunir quem for preciso, convidar todas as mães que têm filhos no Giovannini para lutar para não fechar a escola”, afirma.
Jaqueline propõe uma solução alternativa: que o governo instale o Colégio Tiradentes no antigo Colégio Angélica, prédio neoclássico no centro de Coronel Fabriciano desativado após o fechamento da instituição privada que o ocupava. “Lá sempre foi uma escola e tem tudo para ser um bom Colégio Tiradentes, tem salas de aula, estacionamento… Para onde eles vão levar estas crianças? Na Giovannini eles têm professores preparados, professores de apoio. Não faz sentido fecharem a escola”, questiona.
Governo não apresenta diagnóstico técnico
A polêmica em Coronel Fabriciano se insere num debate que ganhou a Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Na segunda-feira (22), durante audiência pública convocada pela Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da ALMG, nem a Secretaria de Estado de Educação nem o Comando-Geral da Polícia Militar apresentaram o diagnóstico técnico que teria embasado o planejamento para a implantação das novas unidades do Colégio Tiradentes.
A representante da Secretaria de Educação, Simone Aparecida Emerick, disse que os estudos ainda estão em andamento. Segundo ela, apenas 19 escolas foram analisadas até o momento, e a transição ocorreria de forma gradual entre 2027 e 2028, sem cronograma definitivo estabelecido. Ela afirmou também que as escolas já anunciadas pelo governador ainda não têm certeza de que de fato se tornarão Colégios Tiradentes.
A deputada Beatriz Cerqueira (PT), que presidiu a audiência, lembrou que quando a legislação que autorizou a criação de 30 novas unidades foi aprovada na ALMG, havia a garantia de que a medida não interferiria nas escolas regulares. Cerqueira alertou também que os Colégios Tiradentes não oferecem Educação de Jovens e Adultos nem educação em tempo integral, o que representa uma perda de modalidades para as comunidades onde houver substituição das escolas estaduais.
Anúncios durante eventos políticos
Os anúncios do governador Matheus Simões têm sido feitos durante atos do programa “Praça de Serviços, Governo Presente”, quando o governo transfere provisoriamente a capital do Estado para cidades mineiras. O modelo de divulgação, que mistura entregas de obras e serviços com anúncios de mudanças estruturais na educação, em ano eleitoral, tem sido criticado por professores e deputados da oposição, que questionam a ausência de consulta às comunidades afetadas antes dos anúncios públicos.
O programa de expansão dos Colégios Tiradentes também encontrou resistência judicial: o Tribunal de Justiça de Minas Gerais chegou a suspender a política em fevereiro, ao restabelecer decisão do Tribunal de Contas do Estado que apontou ausência de previsão orçamentária compatível para a implantação do modelo.
Por ora, professores, pais e estudantes da Alberto Giovannini aguardam respostas que o governo ainda não deu.