Belo Horizonte passa a oferecer aulas de inteligência artificial nas escolas municipais. A novidade foi confirmada por meio de uma lei sancionada pelo prefeito Álvaro Damião nesta quinta-feira, 20 de agosto. A disciplina será voltada para estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e vai funcionar no contraturno escolar, como atividade complementar.
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A proposta chega em um momento em que o tema já domina o dia a dia das salas de aula, mesmo sem regras claras. Um levantamento feito pela Fundação Itaú no fim de 2025 mostrou que 84% dos estudantes brasileiros e 79% dos professores já usaram alguma ferramenta de inteligência artificial nos estudos.
Apesar disso, apenas 32% dos alunos relataram ter recebido qualquer orientação da escola sobre como usar essas tecnologias de forma segura.
O que a inteligência artificial nas escolas de BH vai ensinar
Segundo a Prefeitura, a disciplina tem cinco frentes principais. A primeira é desenvolver competências digitais, éticas e técnicas relacionadas à IA. A segunda busca estimular o pensamento computacional e a resolução de problemas. A terceira trabalha a compreensão dos fundamentos da tecnologia e de suas aplicações práticas no dia a dia.
Também está prevista a reflexão crítica sobre os impactos sociais, culturais e éticos que essas ferramentas trazem para a sociedade. Por fim, os estudantes vão desenvolver projetos práticos usando recursos de inteligência artificial de forma criativa e responsável, e não apenas de maneira teórica.
A ideia é que os jovens saiam da disciplina entendendo não só como usar essas ferramentas, mas também quais são seus limites e riscos, algo que hoje falta na maior parte das redes de ensino do país.
Professores também vão passar por capacitação
A lei mineira não trata apenas dos alunos. Está prevista a capacitação continuada dos profissionais da rede municipal de ensino, para que os professores estejam preparados para trabalhar o tema em sala de aula. Essa etapa é considerada essencial por especialistas em educação, já que a chegada de novas tecnologias sem formação docente tende a gerar resultados fracos, independentemente da qualidade das ferramentas usadas.
Dados da pesquisa TIC Educação 2025, feita pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, mostram que só 54% dos professores do país receberam algum tipo de formação sobre ferramentas digitais até o momento. Isso reforça a importância de programas de capacitação continuada, e não apenas de encontros pontuais.
Movimento nacional impulsiona a inteligência artificial nas escolas
Belo Horizonte não está isolada nessa decisão. O Conselho Nacional de Educação aprovou uma resolução que torna a educação digital e midiática obrigatória em todos os currículos da educação básica a partir de 2026, da educação infantil ao ensino médio. O órgão também colocou em consulta pública um parecer com diretrizes específicas para o uso de inteligência artificial nas escolas, com uma classificação por níveis de risco das ferramentas utilizadas.
O Ministério da Educação já lançou um documento orientador sobre o tema e disponibilizou nove cursos gratuitos de formação para professores, feitos em parceria com a Unesco. No Paraná, mais de 500 mil estudantes da rede estadual já usam ferramentas de inteligência artificial em sala de aula, principalmente em atividades de correção de redação e ensino de línguas. O Piauí foi além e se tornou o primeiro território das Américas a tornar a IA disciplina obrigatória, tanto no 9º ano do fundamental quanto no ensino médio.
No Congresso Nacional, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados também aprovou um projeto que inclui o estudo da inteligência artificial nos currículos de escolas públicas e particulares de todo o país, tratando o tema como transversal a matérias como Matemática e Ciências.
Belo Horizonte pode servir de referência para outras cidades
Com a nova disciplina, Belo Horizonte se junta a um grupo pequeno, mas crescente, de cidades e estados que decidiram tratar o letramento em inteligência artificial como prioridade educacional, e não como algo opcional.
A expectativa da gestão municipal é que a iniciativa sirva de modelo para outros municípios mineiros e brasileiros, mostrando um caminho prático para levar o tema às salas de aula sem depender apenas de decisões federais.
A tendência é que, nos próximos anos, cada vez mais redes de ensino sigam esse mesmo caminho, já que o próprio Pisa, exame internacional que avalia o desempenho escolar, vai incluir uma prova de letramento midiático e em inteligência artificial a partir de 2029. Isso deve pressionar estados e municípios brasileiros a acelerar suas próprias estratégias para o tema nos próximos anos.