A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de suspeita de perda de visão em pessoas que usavam canetas emagrecedoras.
✅ Siga o nosso canal no WhatsApp
Os relatos apontam para a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, conhecida pela sigla Noia, uma lesão rara no nervo óptico. A informação foi divulgada neste domingo (27).
O que é a Noia?
A Noia funciona como um “infarto” no nervo que leva as imagens do olho até o cérebro. Os pequenos vasos que irrigam a região entopem, parte das células nervosas morre e a visão piora de repente, quase sempre em um só olho e sem dor. Em muitos casos, a perda não é totalmente recuperada.
Quais remédios aparecem nas notificações
Segundo dados do sistema de farmacovigilância da Anvisa, as 13 notificações envolvem canetas da classe dos agonistas de GLP-1, indicadas para diabetes e obesidade:
- Ozempic: 5 notificações
- Wegovy: 3 notificações
- Wegovy FlexTouch: 2 notificações
- Rybelsus: 2 notificações
- Mounjaro: 1 notificação
Como o sistema agrupa os registros pelo princípio ativo, são 12 casos ligados à semaglutida, presente em Ozempic, Wegovy e Rybelsus, e um caso ligado à tirzepatida, do Mounjaro.
O painel da agência também reúne 74 registros de outros problemas de visão entre usuários dessas canetas, como visão turva (37) e comprometimento visual (29).
Um mesmo relato pode citar mais de um sintoma, então os números não representam o total de pacientes. Desde 2018, o painel soma 24 suspeitas de neuropatia óptica isquêmica com todos os tipos de medicamento.
A Anvisa reforça que os casos são tratados como suspeitas. O fato de a pessoa usar o remédio e ter a doença ao mesmo tempo não prova que um causou o outro. A avaliação é difícil porque diabetes, hipertensão e obesidade, condições comuns entre os usuários, também aumentam o risco de problemas nos vasos e nos olhos.
O que já se sabe sobre o risco
Desde junho de 2025, a Noia consta na bula dos remédios com semaglutida como reação adversa muito rara. A decisão veio após análise da Agência Europeia de Medicamentos, que estimou a frequência em até um caso a cada 10 mil usuários.
Um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology, com mais de 1,6 mil prontuários, apontou risco de quatro a sete vezes maior entre quem usou semaglutida, em comparação com outros tratamentos.
Os próprios autores ressaltam que o estudo não prova causa e efeito. O tema ganhou força depois que pacientes nos Estados Unidos abriram processos contra a Novo Nordisk.
A Novo Nordisk, responsável por Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirma que a análise de seus próprios testes clínicos não mostrou aumento de casos com a semaglutida e que os benefícios continuam maiores que os riscos.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que acompanha os dados de segurança dos seus medicamentos, incluindo questões ligadas aos olhos.
Orientações para quem usa as canetas
A Anvisa recomenda que esses remédios sejam usados apenas nas indicações aprovadas, com receita e acompanhamento médico. Desde junho de 2025, a receita fica retida na farmácia no momento da compra.
Sociedades médicas orientam que quem já teve Noia, ou apresenta perda súbita ou recente da visão, suspenda o medicamento e procure atendimento.
Já o oftalmologista Rubens Belfort Neto, da Unifesp, alerta que pacientes com obesidade, diabetes ou hipertensão diagnosticadas não devem interromper o tratamento por conta própria. A decisão deve ser tomada junto com o médico.
A investigação continua para definir se existe relação entre as canetas e os problemas de visão relatados.