Governo Lula formaliza consulta ao TCU e defende bloqueio máximo de R$ 25,9 bilhões

Segundo governo, dispositivo incluído na LDO trava o contingenciamento em até R$ 25,9 bilhões

1 de fevereiro de 2024 às 13h00

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Crédito: Adobe Stock

Brasília- O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) formalizou a consulta ao Tribunal de Contas da União (TCU) para saber se a imposição de um bloqueio menor no Orçamento de 2024 em um cenário de grande frustração de receitas pode gerar punição aos gestores responsáveis pelo ato.

O documento é assinado pela ministra Simone Tebet (Planejamento) e foi encaminhado ao presidente do TCU, ministro Bruno Dantas, na noite de segunda-feira (29).

Nas estimativas do governo, o dispositivo incluído na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2024 trava o contingenciamento em até R$ 25,9 bilhões.

O valor é menor que os R$ 53 bilhões que seriam passíveis de bloqueio pela regra do novo arcabouço fiscal, que autoriza uma contenção de até 25% das despesas não obrigatórias para cumprir a meta fiscal -que prevê déficit zero neste ano.

O artigo da LDO diz que não poderão ser alvo de contingenciamento as despesas necessárias para garantir a expansão de gastos mínima prevista no arcabouço fiscal, que é de 0,6% acima da inflação.

A inserção do trecho foi articulada pelo governo para tentar gerar respaldo legal à blindagem de recursos durante o ano, após o ministro Fernando Haddad (Fazenda) prometer a Lula a preservação de investimentos públicos.

No entanto, a aprovação do instrumento gerou controvérsia jurídica. Por isso, o Planejamento quer uma resposta do TCU para ter segurança do que fazer quando as reavaliações de receitas e despesas apontarem a provável necessidade de segurar gastos para cumprir a meta.

Segundo relatos obtidos pela Folha de S.Paulo, porém, Haddad manifestou a pessoas próximas uma preocupação com o que entendia ser um movimento precipitado, já que eventual contingenciamento só será decidido a partir de março, quando será publicada a primeira reavaliação de receitas e despesas.

Além disso, uma resposta desfavorável à consulta seria ruim para o governo.

Interlocutores do ministro disseram a ele que não havia justificativa para o governo enviar a consulta agora, uma vez que ela não deve ser julgada rapidamente pelo plenário do TCU.

Como mostrou a reportagem da Folha, o teor da consulta parte da premissa de que o mecanismo aprovado pelo Congresso é constitucional, pois blinda parte das despesas do alcance do contingenciamento -algo permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), na interpretação do governo.

Há, no entanto, o reconhecimento da existência de um conflito entre normas.

Enquanto a LDO diz que o bloqueio pode ser menor, a lei n.º 10.028, de 2000, diz que configura infração administrativa contra a lei de finanças públicas “deixar de expedir ato determinando limitação de empenho e movimentação financeira, nos casos e condições estabelecidos em lei”.

A consulta pede uma interpretação do TCU sobre o que fazer diante de duas regras que têm a mesma força dentro da hierarquia da legislação brasileira: uma que obriga a contingenciar e outra que limita o bloqueio.

“Não se afigura juridicamente possível que o cumprimento da lei [LDO] configure infração à lei”, diz o Planejamento na consulta.

O que o ministério pergunta ao tribunal de contas é se o “agente responsável” que promova um contingenciamento até a trava da LDO (ou seja, os R$ 25,9 bilhões) “pode ser considerado como tendo adotado as medidas de limitação de empenho e pagamento” –isto é, se a lei seria considerada cumprida e o gestor ficaria livre de punição.

A preocupação de resguardar os técnicos existe porque eventual infração administrativa é passível de punição pelo TCU, com cobrança de multa.

Por outro lado, obter o posicionamento da corte de contas também deve ser determinante para o debate em torno da flexibilização da meta fiscal, que segue vivo dentro do governo.

Se a orientação do TCU for desfavorável ao Executivo, no sentido de que é necessário bloquear um valor maior, a avaliação de uma ala do governo é de que isso tende a antecipar a rediscussão do alvo da política fiscal neste ano.

Na corte de contas, o ministro Jhonathan de Jesus deve ser o relator, uma vez que ele já é responsável por outra consulta sobre o mesmo tema, apresentada pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), que é vice-líder do governo na Câmara.

Mesmo com o envio da nova consulta, Pedro Paulo disse à Folha que Haddad o contatou nesta quarta-feira (31) pela manhã, preocupado com a consulta que o parlamentar fez ao TCU.

De acordo com o deputado, o ministro disse que, caso a resposta à consulta seja negativa, a meta acabará sendo alterada.

Contrário à flexibilização da meta, Pedro Paulo disse que o melhor caminho seria mudar a lei complementar do novo arcabouço, para pôr fim à controvérsia e garantir segurança jurídica. Ele se colocou à disposição da Fazenda para apresentar um projeto nesse sentido.

“Falei: ‘É risco para o senhor [Haddad] e o presidente Lula. Não preciso dizer que a oposição está só esperando o governo fazer um empenho descumprindo a lei'”, afirmou o deputado, em referência indireta ao que ocorreu no governo Dilma Rousseff (PT), cujas pedaladas fiscais se tornaram o pano de fundo para o processo de impeachment. (Idiana Tomazelli e Adriana Fernandes)

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