Moradores de Atafona, distrito de São João da Barra, no norte do Rio de Janeiro, convivem há décadas com uma paisagem que muda diante dos próprios olhos. O avanço do mar já destruiu cerca de 500 casas, estabelecimentos comerciais e outras construções, segundo estimativa da prefeitura, enquanto ruas, prédios públicos e imóveis que antes faziam parte da comunidade foram gradualmente tomados pela água.
O processo de erosão ocorre há pelo menos sete décadas e transformou Atafona em um dos exemplos mais conhecidos dos efeitos da perda de território no litoral brasileiro. Em determinados pontos, a velocidade do recuo da faixa costeira chega a 7,8 metros por ano, de acordo com estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Além das construções desaparecidas, o avanço do oceano teria atingido mais de 2 mil pessoas, que precisaram deixar suas residências e, em alguns casos, buscar moradia em outras cidades ou estados.

Rio Paraíba do Sul está no centro do problema
Atafona está localizada no delta do Rio Paraíba do Sul, que percorre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro antes de desembocar no Atlântico. É justamente a relação entre o rio e o oceano que ajuda a explicar parte do fenômeno.
Pesquisas indicam que a erosão já acontecia naturalmente antes da ocupação humana da região. Entretanto, intervenções realizadas ao longo da bacia hidrográfica contribuíram para acelerar o processo.
O Paraíba do Sul possui 943 barragens, estruturas que alteram a vazão do rio e reduzem a quantidade de sedimentos transportados até sua foz. Com menos areia chegando ao litoral, diminui também a capacidade natural de reposição do material retirado pelas ondas e correntes.
O desequilíbrio se torna ainda mais evidente durante períodos de ressaca e eventos extremos. O mar retira areia da costa em uma velocidade superior à capacidade de reposição, fazendo a linha costeira recuar progressivamente.
Construções próximas à praia agravaram a erosão
Outro fator apontado pelos estudos é a ocupação da faixa costeira. Construções foram erguidas sobre áreas de dunas e restingas e próximas demais da areia, interferindo no processo natural de movimentação e reposição dos sedimentos.
A consequência pode ser observada nas próprias ruínas de Atafona. Casas, clubes, ruas e prédios que foram atingidos pela erosão permanecem parcialmente visíveis, transformando a região em um registro físico do avanço do oceano.
Os primeiros registros conhecidos do fenômeno na região remontam a 1954, quando a erosão atingiu a Ilha da Convivência. Atualmente, a ilha está praticamente submersa, e seus antigos moradores foram obrigados a procurar outros locais para viver.
Na praia de Atafona, o processo ganhou força alguns anos depois e se intensificou principalmente a partir da década de 1970. Desde então, a perda de território não foi interrompida.
Mudanças climáticas aumentam a pressão sobre a região
Além das alterações provocadas pela atividade humana no rio e pela ocupação do litoral, a elevação do nível dos oceanos acrescenta uma nova pressão sobre a área.
Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 2024, incluiu Atafona entre as 31 localidades do mundo consideradas mais ameaçadas pela elevação dos oceanos. Projeções indicam que o nível do mar na região pode aumentar, em média, 21 centímetros até 2050.
O cenário preocupa porque a elevação do oceano ocorre simultaneamente à erosão já existente. Em alguns trechos, a média de recuo chega a aproximadamente 3 metros de terra por ano, enquanto pontos considerados críticos registram taxas muito superiores.
Pesquisadores alertam que, caso o processo continue sem mudanças significativas, parte da área urbana de Atafona poderá desaparecer em menos de três décadas.
Um problema que ultrapassa Atafona
O que ocorre no distrito fluminense não é um fenômeno isolado. A erosão costeira afeta diferentes regiões do litoral brasileiro e envolve fatores naturais, ocupação urbana, alterações nos rios e mudanças climáticas.
Ventos, ondas, correntes marítimas e ressacas fazem parte da dinâmica natural das praias. O problema surge quando a ocupação humana impede que os sistemas costeiros se recuperem ou quando intervenções em rios modificam o fluxo de sedimentos que chegaria ao oceano.
Estimativas apontam que a erosão já atinge cerca de 60% do litoral brasileiro. Apesar da dimensão do problema, o país ainda não conta com um plano nacional específico e abrangente para enfrentar o avanço da erosão costeira.











