A aposentadoria deixou de representar, para uma parcela crescente dos brasileiros, o fim da vida profissional. Entre pessoas de 65 a 74 anos, o empreendedorismo começa a ganhar um novo significado: em vez de abrir um negócio apenas para complementar a renda, muitos estão aproveitando a experiência acumulada ao longo da carreira para identificar oportunidades e continuar economicamente ativos.
Dados inéditos de 2025 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que quase 63% dos empreendedores brasileiros nessa faixa etária começaram seus negócios motivados por oportunidades de mercado. Outros 32,5% afirmaram ter empreendido por necessidade.
É a primeira vez que o GEM inclui especificamente o grupo de 65 a 74 anos em sua série histórica brasileira, iniciada em 2001. O levantamento é realizado no país pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos de Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe).
Experiência vira combustível para novos negócios
O resultado indica uma mudança importante no perfil do empreendedorismo entre os brasileiros mais velhos. Para cada cerca de 190 empreendedores de 65 a 74 anos que abriram um negócio por oportunidade, aproximadamente 100 fizeram isso por necessidade.
O comportamento se aproxima do observado entre os mais jovens. Na população de 18 a 34 anos, também predomina a abertura de empresas motivada pela identificação de oportunidades. Entre os brasileiros de 35 a 54 anos, a tendência permanece, mas com menor intensidade: 52% afirmam ter começado um negócio depois de perceber uma possibilidade de mercado.
A expansão do empreendedorismo entre os idosos acompanha uma transformação demográfica que já modifica o mercado de trabalho brasileiro.
O país caminha para se tornar, até 2030, o quinto do mundo com a maior população de pessoas com 60 anos ou mais. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida ao nascer aumentou de 62,6 anos em 1980 para 76,4 anos em 2023, ampliando o período em que os brasileiros permanecem ativos.
Brasil já tem milhões de empreendedores 60+
Os números sobre a chamada economia prateada, formada pela população acima dos 60 anos, reforçam o tamanho desse movimento. O Brasil possui atualmente cerca de 4,5 milhões de empreendedores nessa faixa etária, segundo dados do Sebrae Nacional.
O contingente cresceu 58,6% na última década, mostrando que a abertura e a administração de negócios passaram a fazer parte da realidade de um número cada vez maior de pessoas que já chegaram à terceira idade.
O Sebrae mantém programas voltados ao empreendedorismo sênior para apoiar quem pretende transformar conhecimento e experiência profissional em novos negócios. Em 2025, o programa dedicado ao segmento atendeu 869 mil pessoas. Para 2026, a meta é alcançar 1 milhão de atendimentos.
Idosos já representam um quinto da população em idade para trabalhar
A mudança também aparece na composição da força de trabalho. Estudo da pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), aponta que as pessoas com 60 anos ou mais já representam cerca de um quinto da população brasileira em idade para trabalhar.
Em 2024, os estados com as maiores proporções de idosos dentro da População em Idade Ativa (PIA) eram Rio de Janeiro, com 24,1%; Rio Grande do Sul, com 23,7%; e São Paulo, com 21,7%.
Na outra ponta, as menores participações estavam em Roraima (12%), Acre (12,4%) e Amazonas (13%).
O envelhecimento populacional, portanto, deixa de ser apenas uma questão previdenciária e passa a influenciar diretamente o mercado consumidor, as empresas e a criação de novos negócios.










