Uma aposentada que vive na África do Sul ficou três meses sem receber a pensão depois de ser declarada morta por engano pelo sistema responsável pelo benefício. Sem conseguir solucionar a situação à distância, ela precisou pedir dinheiro emprestado a uma amiga para viajar ao Reino Unido e tentar provar pessoalmente que estava viva.
O caso expôs problemas na administração de benefícios de aposentadoria ligados ao sistema de saúde britânico. A mulher trabalhou durante 11 anos no NHS, o sistema público de saúde do Reino Unido, antes de se aposentar e retornar à África do Sul, país de origem, em 2015.
A falha cadastral provocou consequências que foram além da suspensão da renda mensal. Sem condições financeiras, ela deixou de conseguir pagar até mesmo ligações internacionais para o órgão responsável pela administração da pensão. A situação também afetou despesas básicas: segundo o relato, a aposentada passou cerca de um mês convivendo com um dente quebrado porque não tinha dinheiro para arcar com o tratamento odontológico.

Viagem ao Reino Unido não resolveu o problema
Depois de semanas tentando solucionar a situação à distância, a aposentada decidiu viajar ao Reino Unido. Para conseguir pagar a viagem, precisou pegar dinheiro emprestado com uma amiga.
A expectativa era resolver rapidamente o erro comparecendo pessoalmente ao órgão responsável. No entanto, a viagem também não produziu uma solução imediata.
Dias depois de chegar ao país, ela recebeu um comunicado informando que uma atualização do sistema faria com que o NHS Business Services Authority (NHSBSA), responsável pela administração do esquema de pensões, pudesse atender apenas consultas gerais durante oito dias.
Depois disso, outra semana se passou até que ela fosse informada de que seria necessária uma investigação. A previsão dada pelo órgão era de que uma resposta poderia levar mais 30 dias.
O problema se tornou ainda mais delicado porque, mesmo após a viagem, a situação não foi encaminhada de maneira que permitisse uma solução imediata. A aposentada permaneceu no Reino Unido, longe do marido idoso, enquanto tentava obter respostas. Durante o período, ficou hospedada no sofá da casa de uma amiga.
“Morte” precisou ser encaminhada ao setor de fraude
Dois meses depois da primeira reclamação, a aposentada foi informada de que o registro de sua suposta morte precisaria ser encaminhado ao departamento de fraude.
A situação gerou uma espera prolongada, já que o sistema continuava tratando a beneficiária como se ela não estivesse viva, embora ela estivesse pessoalmente no país tentando demonstrar o contrário.
O caso só começou a ser resolvido depois que o problema foi levado à atenção da imprensa. Três semanas após o contato com o NHSBSA, o órgão finalmente depositou os valores atrasados na conta da aposentada.
Ao todo, foram pagos os três meses de pensão que estavam pendentes. O órgão também pediu desculpas pelo sofrimento e pelas dificuldades financeiras provocadas pela falha administrativa.
Problema não é isolado
A situação ocorre em meio a questionamentos mais amplos sobre a administração de registros de pensões ligados ao sistema de saúde britânico.
Em março, o ministro da Saúde Edward Argar informou ao Parlamento que havia 19.681 registros de pensão com erros. Desse total, 7.127 estavam relacionados a informações de desligamento de trabalhadores, enquanto outros 12.554 diziam respeito a atualizações de final de ano.
Segundo o ministro, os problemas poderiam estar associados a qualquer vínculo profissional registrado e não necessariamente aos empregos exercidos especificamente em consultórios de medicina geral.
A administração de determinados serviços do sistema de saúde britânico foi terceirizada. Em 2015, o NHS England concedeu à empresa Capita um contrato inicialmente avaliado em £ 330 milhões, com duração prevista de sete a dez anos, para operar serviços do Primary Care Support England (PCSE), incluindo pagamentos, transporte de prontuários e administração de pensões.
A qualidade do serviço passou a ser alvo de críticas nos últimos anos. A British Medical Association (BMA), entidade que representa médicos britânicos, vem pressionando por mudanças na administração das pensões.











