Agosto de 2026 entrou para a história como o mês mais quente já registrado pelas medições climáticas modernas e, segundo os dados do observatório europeu Copernicus, também apresentou uma temperatura que supera qualquer referência encontrada para o período dos últimos 100 mil anos. A média global chegou a 16,96°C, apenas 0,01°C acima do recorde estabelecido em julho de 2023. Como essa diferença está dentro da margem de incerteza das medições, os cientistas classificam os dois meses como tecnicamente empatados.
O novo dado, divulgado nesta quinta-feira (10), acrescenta mais um capítulo à sequência de recordes observada nos últimos anos. O boletim também revelou que os oceanos atingiram níveis de temperatura sem precedentes pelo terceiro mês consecutivo, enquanto o fenômeno El Niño começa a ganhar força e contribui para elevar ainda mais as temperaturas globais.
A temperatura média registrada em agosto ficou 1,65°C acima dos níveis estimados para o período pré-industrial. O valor está bem acima do limite de 1,5°C estabelecido como referência de longo prazo no Acordo de Paris, embora um único mês acima desse patamar não signifique que a meta climática tenha sido definitivamente ultrapassada.
O que chama atenção dos pesquisadores é a frequência com que os recordes vêm sendo quebrados. De acordo com o Copernicus, os oito meses mais quentes já registrados ocorreram desde julho de 2023. Para Samantha Burgess, responsável estratégica pela área climática do observatório, o sistema climático está apresentando condições muito diferentes daquelas que os cientistas esperavam até pouco tempo atrás.
A avaliação também encontra respaldo em pesquisadores de outras instituições. Andrew Dessler, cientista climático da Texas A&M University, afirmou que o aquecimento observado atualmente segue uma trajetória que já havia sido projetada pela ciência décadas atrás. Para ele, a questão mais importante deixou de ser saber se novos recordes serão registrados e passou a ser discutir quais medidas serão adotadas para enfrentar o fenômeno.
Oito recordes em sequência chamam atenção
Outro aspecto que aumenta a preocupação é que agosto, e não julho, tenha alcançado o maior valor mensal. Historicamente, julho costuma apresentar temperaturas médias globais mais elevadas. Para Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth, a quebra frequente de recordes e a alteração desse padrão tradicional são sinais de que o aquecimento provocado pela atividade humana está ganhando intensidade.
Os números também aparecem em outras séries históricas. O Copernicus mantém dados globais desde 1940. Nos Estados Unidos, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) utiliza registros que remontam a 1895, enquanto as séries globais da agência começam em 1880 e, embora geralmente apresentem resultados semelhantes aos do observatório europeu, levam mais tempo para serem calculadas.
No hemisfério Norte, o cenário foi particularmente intenso. O verão de 2026 empatou com o de 2024 como o mais quente já registrado globalmente, enquanto o Canadá também enfrentou um período excepcional de calor.
Nos Estados Unidos, o verão entre junho e agosto apresentou uma média de 23,54°C nos 48 estados contíguos, superando por quase 0,4°C o recorde estabelecido em 1936, durante o período conhecido como Dust Bowl. Agosto também foi histórico no país, com média de 24,21°C e temperatura máxima média diurna de 31,42°C.
Oceanos também atingem marcas extremas
O calor não ficou restrito à superfície terrestre. Em agosto, a temperatura média dos oceanos empatou com o recorde absoluto registrado em março de 2024, configurando o mês marítimo mais quente já medido.
Além disso, o dia 22 de agosto estabeleceu um novo recorde para a temperatura mais alta registrada nos mares do planeta. A sequência de marcas reforça a dimensão global do fenômeno, já que os oceanos funcionam como grandes reguladores do sistema climático e absorvem enorme quantidade do excesso de calor acumulado na atmosfera.
A combinação de temperaturas elevadas em terra e no mar também aumenta o risco de eventos extremos. Ondas de calor, incêndios florestais, secas, tempestades e inundações tendem a se tornar mais frequentes e intensos conforme a temperatura média do planeta continua subindo.
El Niño agrava um cenário que já era preocupante
O fenômeno El Niño aparece como um dos fatores que contribuíram para o calor excepcional de 2026. Trata-se de um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento de áreas do Pacífico, capaz de alterar padrões atmosféricos e elevar as temperaturas em diferentes regiões do mundo.
Os pesquisadores, entretanto, ressaltam que o El Niño não explica sozinho o recorde. Samantha Burgess estima que o fenômeno normalmente acrescente entre 0,1°C e 0,2°C à temperatura média global. A maior parte do aquecimento observado continua associada ao aumento dos gases de efeito estufa provocado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás natural.
A cientista Friederike Otto, do Imperial College London, também destacou que a mudança climática causada pela atividade humana potencializa os efeitos do El Niño. Em outras palavras, o fenômeno natural ocorre sobre um planeta que já está mais quente, tornando seus impactos ainda mais expressivos.











