Aos 85 anos, o ator britânico Peter Marinker se prepara para voltar aos palcos de Londres em um dos desafios mais particulares da carreira: interpretar sozinho Krapp’s Last Tape, de Samuel Beckett, uma peça cuja história gira justamente em torno da memória, do envelhecimento e das transformações da identidade. Diagnosticado com Alzheimer há dois anos, o artista terá a própria experiência incorporada à montagem.
O retorno acontece depois de uma trajetória marcada por trabalhos no rádio, audiolivros, cinema, televisão e teatro. Marinker é conhecido especialmente por sua extensa atuação na BBC Radio e por trabalhos de voz em filmes, videogames e produções de grande orçamento, como Labyrinth e Paddington in Peru. Também participou de Love Actually, interpretando um conselheiro do presidente dos Estados Unidos, e do drama United 93.
Agora, a relação entre arte e experiência pessoal ganha um peso ainda maior. Durante os ensaios, Marinker chegou a aparecer por quatro dias consecutivos em um local onde sequer havia ensaio marcado, confundindo as datas por causa da demência. Ainda assim, ele decidiu enfrentar o desafio de uma apresentação solo.

Uma peça sobre memória ganha novo significado
Escrita por Beckett em 1958, Krapp’s Last Tape acompanha Krapp, um homem idoso que passa seu aniversário sozinho e escuta gravações realizadas em diferentes momentos de sua vida. Aos 69 anos, personagem revisita a própria juventude e confronta as mudanças provocadas pelo tempo.
Para Marinker, a história tem uma dimensão especialmente pessoal. O ator interpretou Krapp pela primeira vez em 1983 e, na nova montagem, serão utilizadas as gravações em rolo que ele próprio realizou naquela época. Assim, sua voz de décadas atrás estará presente no palco enquanto ele interpreta novamente o personagem aos 85 anos.
A produção também contará com um diretor de palco e com instruções transmitidas por um dispositivo de áudio durante a apresentação. Em vez de esconder as dificuldades relacionadas à memória, a montagem incorpora esses elementos à proposta artística.
O resultado cria um encontro entre diferentes momentos da vida do ator: sua voz registrada aos 40 e poucos anos, seu corpo e sua interpretação atuais e uma personagem construída por Beckett justamente a partir do confronto com as próprias lembranças.
Diagnóstico veio após problemas no teatro
A relação de Marinker com o palco sofreu uma mudança importante em 2023. Naquele ano, ele interpretava Gandalf em uma versão musical de O Senhor dos Anéis quando começou a perceber episódios em que simplesmente “desligava” durante a apresentação.
No início, os lapsos eram breves. Ele fazia uma pausa e conseguia continuar. Com a repetição dos episódios, porém, um substituto precisou assumir o personagem durante o restante da temporada.
Exames, incluindo uma ressonância magnética, foram realizados posteriormente. Dois anos atrás, veio o diagnóstico de Alzheimer.
Mesmo diante da doença, Marinker decidiu continuar trabalhando. Para ele, a experiência também mudou sua maneira de atuar. Em vez de depender exclusivamente do cálculo e da memorização, o artista afirma estar se aproximando mais do instinto e das emoções — justamente características que podem ganhar força em uma obra como a de Beckett.
Uma relação de décadas com Samuel Beckett
A ligação do ator com o dramaturgo começou ainda em 1961, quando Marinker teve contato com Waiting for Godot. A partir dali, Beckett se tornou uma presença constante em sua trajetória profissional.
O vínculo foi tão forte que Marinker chegou a fundar a The Godot Company, dedicada à apresentação das obras do dramaturgo de acordo com suas características originais.
A escolha de Krapp’s Last Tape para seu retorno aos palcos, portanto, não representa apenas uma nova oportunidade profissional. A peça reúne temas que acompanham a carreira do ator e que agora também fazem parte de sua experiência pessoal: memória, passagem do tempo, envelhecimento e identidade.
O diretor Dave Wybrow afirma que a produção não pretende simplesmente contornar as limitações provocadas pela doença. A proposta é incorporá-las ao espetáculo e transformar a condição do intérprete em parte da investigação artística.
Um clássico que voltou aos palcos
A nova montagem de Marinker chega em um momento de renovado interesse por Krapp’s Last Tape. A obra vem recebendo diferentes interpretações recentes nos palcos internacionais.
Stephen Rea levou a peça para uma turnê internacional, enquanto Gary Oldman voltou aos palcos para interpretar Krapp em Londres. Outra montagem está prevista para o Festival de Edimburgo, com Stockard Channing na direção e David Westhead no papel principal.
A nova versão protagonizada por Marinker, entretanto, carrega uma particularidade difícil de reproduzir: o próprio ator poderá confrontar no palco uma gravação de sua voz feita em 1983.
A experiência transforma o texto de Beckett em algo ainda mais próximo da realidade. O personagem passa boa parte da peça ouvindo quem foi no passado. Marinker fará o mesmo, mas com um registro real de sua própria trajetória artística.











