O costume de retirar os sapatos ao entrar em casa é amplamente associado à higiene doméstica, mas especialistas apontam que a prática não é, necessariamente, uma exigência sanitária. Segundo o higienista e microbiólogo francês Christophe Mercier Thellier, o hábito tem mais relação com fatores culturais e preferências pessoais do que com riscos concretos à saúde.
De acordo com ele, apesar de os calçados transportarem sujeiras e microrganismos do ambiente externo, a quantidade levada para dentro das residências costuma ser pequena e, na maioria dos casos, não representa ameaça significativa. “Não nos contaminamos pelo chão. Bactérias e vírus não ‘saltam’”, afirma o especialista.
Pesquisas científicas, no entanto, indicam que os sapatos podem carregar micro-organismos. Um estudo da University of Arizona apontou que cerca de 96% dos calçados analisados apresentavam bactérias coliformes, frequentemente associadas a matéria fecal.
Entre os microrganismos identificados estão a Escherichia coli (E. coli), ligada a infecções intestinais e urinárias, a Staphylococcus aureus, comum em ambientes hospitalares, e a Clostridium difficile, associada a quadros intestinais mais graves.
Além disso, resíduos de pesticidas e produtos químicos também podem ser transportados pelas solas dos calçados, especialmente em áreas urbanas e rurais.
Apesar desses dados, especialistas ressaltam que a simples presença de bactérias não significa risco automático de infecção. A contaminação depende de fatores como contato direto, higiene do ambiente e condições de saúde dos moradores.
Benefícios e contrapontos dentro de casa
Retirar os sapatos pode, sim, trazer vantagens práticas, como reduzir a sujeira acumulada no chão e facilitar a limpeza, além de contribuir para a conservação de pisos e tapetes. Também pode diminuir a entrada de agentes externos.
Por outro lado, o médico clínico-geral Cyril Bègue destaca que o principal benefício da prática está mais relacionado ao conforto e à saúde dos pés, como melhor ventilação e prevenção de problemas dermatológicos, e não necessariamente à higiene da casa.
Há ainda riscos associados ao hábito de ficar descalço. Estudos indicam que, especialmente entre idosos, mais da metade das quedas domésticas ocorre quando a pessoa está sem sapatos ou usando apenas meias ou chinelos, o que pode aumentar a chance de acidentes.




