Duas pessoas podem ter a mesma idade no calendário, mas apresentar ritmos de envelhecimento completamente diferentes. Foi para entender essas diferenças que uma equipe internacional de cientistas, com participação de pesquisadores da Universidade de Harvard, desenvolveu um novo modelo capaz de estimar a chamada idade biológica, considerada um retrato mais fiel do estado do organismo do que a idade cronológica.
O estudo identificou padrões de atividade genética comuns em diferentes espécies de mamíferos, incluindo seres humanos, permitindo a criação de um novo “relógio molecular” que mede o envelhecimento com base no funcionamento dos genes. Além de estimar a idade biológica, a ferramenta também demonstrou potencial para indicar a expectativa de vida e acompanhar a evolução de doenças relacionadas ao envelhecimento.

Ao contrário dos modelos tradicionais, que analisam alterações químicas no DNA conhecidas como marcadores epigenéticos, o novo sistema observa a atividade dos genes por meio do RNA, molécula responsável por transmitir as instruções genéticas para a produção de proteínas.
Essa técnica, chamada de relógio transcriptômico, identifica quais genes estão mais ou menos ativos em determinado momento. Como esse padrão muda ao longo da vida, ele pode servir como um indicador do processo de envelhecimento.
Os pesquisadores analisaram mais de 11 mil perfis de atividade genética obtidos em humanos, camundongos, ratos e macacos, permitindo comparar como o envelhecimento ocorre entre diferentes espécies e em diversos órgãos do corpo.
Envelhecimento celular pode ser medido
Durante os testes, o modelo foi aplicado em organismos com doenças associadas ao envelhecimento, como Alzheimer e doença renal crônica, além de modelos de envelhecimento acelerado.
Em mais de 90% das amostras analisadas em nível celular, o relógio indicou um envelhecimento biológico superior ao esperado, reforçando que esse processo acontece diretamente nas células.
Nos participantes humanos, a ferramenta também conseguiu estimar com boa precisão a expectativa de vida em um grande estudo voltado à saúde cardiovascular.
Além disso, o relógio respondeu a fatores conhecidos por acelerar ou retardar o envelhecimento. A idade biológica aumentou após exposição à radiação e em doenças crônicas, enquanto intervenções experimentais ligadas ao rejuvenescimento, como transfusões de sangue de animais jovens para idosos em pesquisas com roedores, fizeram o marcador retroceder.
Diferença para os modelos atuais
Hoje, boa parte dos estudos utiliza os chamados relógios epigenéticos, que analisam modificações químicas acumuladas no DNA ao longo da vida. Esses modelos conseguem estimar o risco de doenças e até prever a longevidade, mas nem sempre explicam claramente os mecanismos biológicos envolvidos.
Segundo os autores, o novo relógio baseado na atividade dos genes oferece uma vantagem importante: ele permite identificar quais processos celulares estão diretamente relacionados ao envelhecimento.
A análise revelou que, com o avanço da idade, aumentam a atividade de genes ligados à inflamação, ao comprometimento da produção de energia pelas células e à senescência celular, estado em que células envelhecidas deixam de funcionar adequadamente e passam a liberar substâncias prejudiciais ao organismo.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que o relógio transcriptômico ainda está em fase de pesquisa e não pode ser utilizado para exames clínicos ou para determinar exatamente quanto tempo uma pessoa viverá.




