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Homem escravizado aprendeu a escrever e gravou poemas nos vasos que produzia; quase dois séculos depois, descendentes recuperam duas de suas obras

Por Alan da Silva
04/10/2026
Em Geral
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Homem escravizado aprendeu escrever gravou

Foto ilustrativa: Vansh Sharma/Pexels

Duas peças de cerâmica feitas pelo oleiro David Drake, que viveu escravizado no século 19, voltaram às mãos de sua família. A instituição responsável pela devolução foi o Museu de Arte de Milwaukee, que repassou as peças ao Dave the Potter Legacy Trust. Entidade criada para administrar o legado do artista, e depois recomprou uma das peças para mantê-la exposta em suas galerias.

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A segunda obra permanece no acervo do museu por meio de um empréstimo de longo prazo, garantindo que ambas as peças continuem acessíveis ao público.

Ao Milwaukee Journal Sentinel, o bisneto de Drake em quarta geração, Yaba Baker, destacou que a força de vontade e a habilidade que marcaram a produção das peças continuam servindo de exemplo para os descendentes do artista e que manter os dois trabalhos visíveis em Milwaukee assegura que a história do antepassado alcance as próximas gerações.

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Uma vida de trabalho forçado nas olarias

Nascido por volta de 1.800 em condição de escravidão, Drake viveu em Edgefield, na Carolina do Sul, região conhecida pela argila abundante e pela tradição da cerâmica com esmalte alcalino.

Obrigado a trabalhar nas olarias locais, ele desenvolveu habilidade rara para produzir potes de até 40 galões de capacidade. Uma escala pouco comum para a época e que atesta o domínio de seu ofício.

Em 2011, arqueólogos descobriram um forno parcialmente soterrado em Pottersville, na Carolina do Sul. A estrutura, que inicialmente se acreditava ter cerca de 25 pés de comprimento. Estendia-se por 105 pés — evidência do porte industrial daquela produção e do volume de trabalho forçado que a sustentava.

Mesmo em um contexto em que a lei proibia escravizados de ler e escrever, Drake conseguiu aprender essas habilidades clandestinamente.

Poemas e assinaturas gravados em argila

Drake passou a gravar versos curtos e seu próprio nome em muitas de suas peças, numa prática rara entre artesãos escravizados da época. Em um jarro de 1840, ele identificou o proprietário da olaria onde trabalhava e fez referência ao próprio ofício de queimar peças no forno.

Em outro momento de sua vida, Drake inscreveu a palavra “catination” — significando o estado de uma pessoa acorrentada ou presa no jugo — em um jarro em 1836, apenas dois anos após a Carolina do Sul aprovar uma lei que punia a alfabetização de escravizados.

Essas inscrições funcionam hoje como registro da individualidade de um Homem a quem a lei negava até o direito à própria voz.

Reconhecimento tardio e restituição em progresso

O Dave the Potter Legacy Trust nasceu poucos anos atrás, depois que um dos chamados “jarros-poema” do artista foi arrematado em leilão por 1,56 milhões de dólares em 2021. Com 25 galões de capacidade e datada de 1858, a peça trazia versos de Drake descrevendo um jarro grande, com quatro alças, próprio para guardar carnes frescas.

Outro jarro foi vendido em leilão por 369 mil dólares, estabelecendo recorde mundial para obra do artista em seu tempo.

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Alan da Silva

Alan da Silva

Jornalista e revisor.

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