Uma escultura de mármore comprada por R$ 180 em uma loja de artigos usados no Texas, nos Estados Unidos, revelou-se um busto romano de mais de 2 mil anos provavelmente levado durante a Segunda Guerra Mundial. O achado surpreendeu especialistas e levanta dúvidas sobre como artefatos antigos de valor inestimável acabam circulando em lojas de bairro.
Laura Young, vendedora de antiguidades há aproximadamente uma década, percorria as prateleiras de uma loja Goodwill em Austin quando viu uma peça de mármore embaixo de uma mesa. O busto pesava cerca de 50 quilos e apresentava características que a intrigaram, como um penteado que remetia ao período greco-romano e uma qualidade artística notável.
O preço fixado na bochecha da escultura era de R$ 180, quantia que Young considerou razoável para uma peça tão incomum.
Uma história de séculos guardada no esquecimento
Após a compra, Young entrou em contato com especialistas acadêmicos para descobrir a verdadeira natureza da obra. Um consultor de uma casa de leilões confirmou que se tratava de uma escultura romana autêntica, datada do período Julio-Claudiano, que vai de 27 a.C, e até 68 d.C.
O que torna a peça extraordinária não é apenas sua antiguidade, mas o contexto de seu achado. Stephennie Mulder, historiadora de arte da Universidade do Texas em Austin, informou ao KUT que bustos romanos não são raros em museus e coleções privadas, mas que geralmente não estão em lojas de bairro como uma Goodwill.
Segundo a historiadora, a presença da peça naquele lugar é o que a torna realmente excepcional.
O mistério sobre quem é retratado
Acadêmicos discordam sobre qual figura histórica o busto representa, e alguns acreditam que se trata de Druso Germânico, comandante romano do primeiro século a.C. e irmão mais jovem de Tibério, o segundo imperador romano. Outros argumentam que a escultura retrata Sexto Pompeu, filho de Pompeu, o Grande, que formou o primeiro triunvirato ao lado de Júlio César e Marco Crasso.
Lynley McAlpine, curadora da coleção do Museu de Arte de San Antonio, defende a identificação como Sexto Pompeu.
Ela observa que a peça pode representar uma figura política perigosa: “É um retrato de um fora da lei, uma espécie de inimigo do estado. É incomum preservar algo assim. É interessante que alguém tenha mantido em sua coleção pessoal uma obra retratando um inimigo do imperador. Exibir algo assim poderia ser perigoso.” Após a derrota de seu pai na guerra civil contra Júlio César, Sexto continuou a resistência, mas foi eventualmente executado.
O rastro de guerra que levou ao Goodwill
O caminho do busto até a loja de usados em Austin passa por um período turbulento da história europeia. Registros indicam que a escultura era mantida no Pompeiianum, uma réplica de uma villa romana localizada em Aschaffenburg, na Alemanha. O projeto foi iniciado pelo rei Ludovico I da Baviera e concluído nos anos 1840.
Ludovico I foi um colecionador de antiguidades, inspirado pelas primeiras escavações de Pompeia na Itália. A propriedade abrigava estátuas antigas, entre elas o busto que viraria uma pechincha em uma loja de caridade séculos depois.
Durante a Segunda Guerra Mundial, muitas obras de arte europeias foram deslocadas, saqueadas ou perdidas nos conflitos. A história exata de como este busto chegou do Pompeiianum ao Texas permanece parcialmente envolvida em mistério.











