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Nesta cidade brasileira, o mar invade as ruas, mas não entra nas casas graças a um detalhe da arquitetura

Por Pedro Silvini
29/08/2026
Em Geral
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paraty cidade brasil

Foto: (Reprodução/Wikimedia Commons)

Quem visita Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, pode se deparar com uma cena que parece improvável: a água do mar avançando pelas ruas do Centro Histórico e formando verdadeiros espelhos sobre o calçamento de pedras. Apesar da aparência de alagamento, o fenômeno é conhecido pelos moradores, ocorre de maneira previsível e está relacionado ao próprio projeto urbano construído séculos atrás.

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As ruas do centro histórico foram erguidas pouco acima do nível do mar e possuem um calçamento irregular de pedras, conhecido como pé de moleque. Quando a maré sobe, principalmente durante as fases de lua cheia e lua nova, a água consegue avançar pelas vias mais baixas. As casas, porém, foram construídas cerca de 30 centímetros acima do nível das ruas, uma característica que ajuda a impedir que a água entre nos imóveis.

Foto: (Reprodução/Wikimedia Commons)

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Projeto urbano aproveitava a força das marés

O fenômeno não é resultado de uma falha recente de infraestrutura. Segundo o historiador Gunnar Sotero, o desenho das ruas foi planejado ainda nos séculos XVII e XVIII para permitir a entrada controlada da água do mar.

As vias mais baixas e inclinadas funcionavam como canais. A água salgada entrava lentamente pelo calçamento e, posteriormente, retornava para a baía, contribuindo para a limpeza das ruas em uma época na qual os serviços de saneamento eram inexistentes ou extremamente precários.

As pedras também foram organizadas de maneira a facilitar o escoamento em diferentes direções. Com isso, a própria movimentação da maré ajudava na drenagem e na limpeza do espaço urbano.

O fenômeno é conhecido como maré astronômica e acontece principalmente nas luas cheia e nova, quando Sol, Lua e Terra ficam alinhados e provocam uma maior variação no nível da água. Ventos, características da baía e a baixa altitude do centro histórico também influenciam a intensidade da invasão.

Água chega às ruas, mas encontra as casas acima do nível

A arquitetura dos imóveis é um dos elementos que explicam por que a água costuma permanecer nas ruas. As construções foram posicionadas aproximadamente 30 centímetros acima do calçamento, criando uma diferença de altura suficiente para evitar que a maré avance diretamente para o interior das casas.

O sistema também aproveita a inclinação das ruas para permitir que a água retorne posteriormente. Ao recuar, a água do mar se mistura à água do rio Perequê-Açu, formando um fluxo salobro que percorre parte da região.

Para os moradores e comerciantes, portanto, a subida da maré é um fenômeno conhecido e que pode ser antecipado com o acompanhamento das tábuas de maré. Os horários variam ao longo do mês, mas as maiores ocorrências estão associadas às fases de lua cheia e lua nova.

Em vez de representar necessariamente um problema urbano, o fenômeno acabou incorporado à identidade de Paraty. A água refletindo as fachadas coloniais, igrejas e construções coloridas cria uma paisagem que se tornou uma das imagens mais conhecidas da cidade.

Centro histórico preserva características de séculos atrás

O conjunto arquitetônico de Paraty é protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1958. O perímetro histórico também possui uma característica que contribui para preservar a atmosfera da região: veículos não circulam pelas ruas centrais.

Em 2019, Paraty e Ilha Grande foram reconhecidas pela Unesco como o primeiro sítio misto do Brasil, reunindo valores culturais e naturais em uma área de aproximadamente 149 mil hectares, cercada por quatro unidades de conservação.

O patrimônio preserva casarões, igrejas e ruas de pedra que remontam ao período colonial. Boa parte do calçamento original permanece no local, permitindo que o antigo desenho urbano continue funcionando diante das oscilações naturais da maré.

Fenômeno virou atração nas redes sociais

A maré invadindo as ruas ganhou ainda mais repercussão depois que vídeos do fenômeno circularam nas redes sociais. Uma publicação compartilhada no X, antigo Twitter, alcançou cerca de 2,5 milhões de visualizações, despertando a curiosidade de internautas.

Ver essa foto no Instagram

Um post compartilhado por Fatos de Geografia (@fatosdegeografia)

A cena fez com que usuários comparassem Paraty a Veneza e questionassem como uma cidade poderia conviver com a entrada periódica do mar sem que as casas fossem igualmente atingidas.

A explicação está justamente na combinação entre topografia, ciclos naturais e arquitetura colonial. O que hoje chama atenção de turistas e usuários das redes sociais foi, em sua origem, uma solução encontrada para conviver com as características ambientais da região.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Pedro Silvini

Pedro Silvini

Jornalista com formação em Mídias Sociais Digitais, colunista de conteúdo social e opinativo. Apaixonado por cinema, música, literatura e cultura regional.

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