Uma pesquisa internacional revelou uma dimensão ainda pouco conhecida da diversidade viral presente nos ambientes urbanos. Cientistas identificaram mais de 42 mil novos vírus de RNA que nunca haviam sido catalogados pela ciência, encontrados em amostras coletadas em diferentes locais frequentados pela população, como sistemas de transporte, hospitais, bancos e redes de esgoto.
O levantamento, publicado em julho na revista científica Nature Communications, analisou 2.922 amostras biológicas de 102 cidades espalhadas por 31 países, incluindo São Paulo. Ao todo, os pesquisadores catalogaram 54.945 espécies de vírus de RNA, grupo que inclui agentes conhecidos responsáveis por doenças como dengue, zika, gripe, febre amarela e Covid-19.
Apesar do número expressivo, os cientistas ressaltam que a descoberta não significa que esses vírus estejam provocando uma nova ameaça à população. O principal objetivo é criar uma espécie de mapa da diversidade viral existente no ambiente e permitir que futuras alterações sejam detectadas com maior rapidez.
Atlas cria mapa mundial dos vírus urbanos
O trabalho resultou na criação do Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos, considerado pelos pesquisadores um dos maiores levantamentos desse tipo já realizados.
As amostras foram obtidas de diferentes ambientes, incluindo solo, sedimentos e outros materiais ambientais presentes em cidades e regiões próximas. O estudo reuniu mais de 55 mil sequências de vírus de RNA e apontou que aproximadamente 80% delas nunca haviam sido documentadas anteriormente.
Para os pesquisadores, conhecer o que já circula no ambiente é fundamental para identificar alterações futuras.
A lógica é semelhante à criação de uma linha de base: ao saber quais vírus estão presentes normalmente em determinada região, cientistas podem perceber mais rapidamente quando surge uma atividade viral incomum.
Cerca de 60 vírus podem ter potencial para infectar humanos
Entre os milhares de vírus identificados, os pesquisadores encontraram aproximadamente 60 que, segundo modelos computacionais, apresentam potencial para infectar seres humanos.
Outros 47 vírus foram apontados como potencialmente capazes de infectar animais.
O levantamento também encontrou 166 vírus que aparentemente interagem com bactérias resistentes a antibióticos, conhecidas como patógenos ESKAPE. Esse grupo é considerado especialmente relevante para a saúde pública devido à capacidade de algumas dessas bactérias de escapar dos tratamentos disponíveis.
Os resultados, entretanto, não permitem afirmar que esses vírus estejam causando doenças nas pessoas ou que representem uma ameaça imediata.
A identificação por técnicas genéticas mostra a presença e as características das sequências virais, mas são necessárias outras pesquisas para determinar quais organismos conseguem infectar, como ocorre a transmissão e se existe capacidade de provocar doença.
Descoberta também muda compreensão sobre vírus de RNA
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: aproximadamente metade dos vírus de RNA identificados parece infectar bactérias.
A constatação contrasta com a percepção tradicional de que os vírus de RNA estão principalmente associados a animais. O achado amplia a compreensão sobre a diversidade desses organismos e pode abrir novas linhas de investigação científica.
Para especialistas essa característica pode inclusive representar uma oportunidade. A interação entre vírus e bactérias poderia contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias contra microrganismos resistentes aos antibióticos.
São Paulo aparece no levantamento
A presença de São Paulo entre as cidades analisadas coloca o Brasil dentro desse esforço internacional de monitoramento da diversidade viral.
O estudo não indica, porém, que moradores da capital estejam diante de uma epidemia ou que frequentar metrôs, bancos, hospitais ou outros espaços urbanos tenha se tornado repentinamente perigoso. A pesquisa tem caráter principalmente ambiental e de vigilância científica.
Os pesquisadores defendem justamente que conhecer os vírus presentes nesses locais permite estabelecer uma referência para o futuro. Caso uma determinada sequência viral passe a aparecer com frequência incomum, por exemplo, os sistemas de vigilância poderão ter mais informações para avaliar a mudança.











