Entender quem faz parte da classe média brasileira vai muito além da renda individual. Novos levantamentos mostram que a classificação econômica considera a renda total das famílias e o número de moradores em cada residência, revelando um retrato mais detalhado do poder de compra e das condições de vida da população.
Segundo dados atualizados da FGV Social, a maior parte dos brasileiros está atualmente concentrada na classe C, grupo tradicionalmente associado à classe média. O estudo também aponta um crescimento da participação das classes mais altas e uma redução histórica da população nas faixas de menor renda.
A metodologia utilizada pela FGV Social considera a renda domiciliar per capita, calculada pela divisão da soma dos rendimentos da casa pelo número de moradores. O objetivo é evitar distorções provocadas pelo tamanho das famílias e medir de forma mais precisa a capacidade de consumo dos brasileiros.
Para facilitar a compreensão, os pesquisadores convertem esse valor em renda domiciliar total, utilizando o tamanho médio dos domicílios brasileiros. Os dados são corrigidos pela inflação medida pelo IPCA e expressos em valores equivalentes aos preços médios de 2023.
De acordo com o estudo “Evolução das Classes Econômicas Brasileiras: 1976 a 2024”, coordenado pelo economista Marcelo Neri, os limites atuais para cada faixa econômica são:
- Classe E: renda domiciliar de até R$ 1.580;
- Classe D: entre R$ 1.580 e R$ 2.525;
- Classe C: entre R$ 2.525 e R$ 10.885;
- Classe B: entre R$ 10.885 e R$ 14.191;
- Classe A: acima de R$ 14.191.
Esses valores funcionam como referência estatística e não levam em consideração fatores como patrimônio acumulado, imóveis ou diferenças no custo de vida entre cidades e regiões.
Classe média reúne maioria da população
Os dados mostram que a classe C concentra atualmente cerca de 60,9% dos brasileiros, tornando-se o maior grupo econômico do país. Já as classes A e B, somadas, representam aproximadamente 17,2% da população.
Na outra ponta, as classes D e E correspondem juntas a cerca de 21,8% dos brasileiros, o menor percentual registrado desde o início da série histórica, em 1976.
Outro indicador analisado pela FGV é o chamado grupo ABC, que reúne as classes A, B e C. Em 2024, esse conjunto passou a representar 78,1% da população nacional, o maior patamar já registrado. Entre 2022 e 2024, cerca de 17,4 milhões de pessoas migraram para esse segmento.
Mercado adota divisões mais específicas
Além da metodologia da FGV, projeções utilizadas pelo mercado financeiro e por empresas de consumo trabalham com classificações mais detalhadas para avaliar o comportamento dos consumidores.
Nesse modelo, famílias com renda bruta mensal entre R$ 3.500 e R$ 8.300 são consideradas integrantes da classe média tradicional. Já aquelas com rendimentos entre R$ 8.300 e R$ 26 mil são enquadradas como classe média alta. Acima desse patamar encontra-se a classe alta, formada por uma parcela reduzida da população.
Segundo estimativas, a classe média tradicional representa cerca de 31,2% dos brasileiros, enquanto a classe média alta corresponde a aproximadamente 15% dos lares do país. A faixa de renda superior a R$ 26 mil mensais reúne apenas cerca de 4% da população.
Crescimento econômico não se traduziu em maior poder de compra
Apesar da ampliação do acesso ao consumo nas últimas décadas, estudos recentes apontam que muitos brasileiros têm a percepção de que trabalham mais e conseguem comprar menos.
Levantamento da Kinea Investimentos indica que o Brasil registrou crescimento econômico médio de apenas 2,2% ao ano entre 1981 e 2024. Segundo a análise, o avanço da produtividade não acompanhou a expansão do consumo observada em diferentes períodos.
O estudo destaca que entre 2003 e 2013 milhões de brasileiros passaram a ter acesso a bens antes considerados típicos da classe média consolidada, como automóveis, imóveis financiados e viagens aéreas. Esse movimento foi impulsionado pela valorização das commodities, expansão do crédito, aumento do salário mínimo e políticas de estímulo econômico.




