O chamado “sangue dourado” existe e está entre os tipos sanguíneos mais raros já identificados pela medicina. Conhecido cientificamente como Rh nulo (Rh-null), ele se caracteriza pela ausência de todos os antígenos do sistema Rh nas células vermelhas do sangue. Ao longo dos registros médicos disponíveis, apenas cerca de 43 pessoas foram identificadas com essa condição, o que explica o apelido associado à extrema raridade.
Apesar do nome, o sangue dourado não é considerado mais puro, saudável ou superior aos demais tipos. A expressão é apenas uma forma popular de destacar a dificuldade de encontrar pessoas com esse perfil sanguíneo. Para especialistas, sua importância está principalmente na possibilidade de utilização em determinadas transfusões envolvendo pacientes com tipos raros do sistema Rh.
Para entender o Rh nulo, primeiro é necessário compreender como os tipos sanguíneos são classificados. Os exames normalmente analisam os sistemas ABO e Rh, identificando a presença de determinadas estruturas chamadas antígenos na superfície das hemácias.

No sistema ABO, quem possui o antígeno A é classificado como tipo A; quem apresenta o B pertence ao grupo B; a presença dos dois caracteriza o tipo AB, enquanto a ausência de ambos corresponde ao tipo O.
Já no sistema Rh, um dos principais marcadores avaliados é o antígeno RhD. Quando ele está presente, a pessoa é considerada Rh positivo. Quando não está, o sangue é classificado como Rh negativo.
O sistema, porém, é muito mais complexo. Existem mais de 50 antígenos pertencentes ao grupo Rh. Uma pessoa com sangue Rh nulo não possui nenhum deles, característica que diferencia esse sangue até mesmo de outros tipos considerados raros.
A condição está relacionada a alterações genéticas extremamente incomuns. Uma das possibilidades envolve mutações no gene RHAG, responsável por produzir uma glicoproteína associada ao sistema Rh e necessária para direcionar os antígenos Rh até a membrana das hemácias.
Sangue raro pode ser valioso para outras pessoas
A ausência dos antígenos Rh faz com que as hemácias de uma pessoa com Rh nulo tenham características particularmente importantes para transfusões de pacientes que apresentam determinados tipos sanguíneos raros. Por isso, esse sangue pode ser considerado um doador universal dentro do sistema Rh em situações específicas.
Na prática, isso significa que uma unidade de sangue Rh nulo pode ser compatível com pessoas que possuem combinações raras de antígenos do sistema Rh e que teriam dificuldade para encontrar um doador adequado. Em uma emergência, uma bolsa desse tipo pode representar uma diferença decisiva para um paciente que não tenha outra opção compatível.
O problema é justamente a sua escassez. Como pouquíssimas pessoas no mundo possuem Rh nulo, localizar uma unidade compatível pode ser extremamente difícil. Por essa razão, pessoas identificadas com esse tipo sanguíneo podem ser acompanhadas por serviços especializados e, quando possível, seus estoques de sangue são tratados com atenção especial.
Para quem tem, a raridade também representa um risco
O benefício potencial para outros pacientes não significa que possuir sangue dourado seja uma vantagem para o próprio indivíduo. Pelo contrário: uma transfusão pode se tornar uma situação particularmente delicada.
Caso uma pessoa Rh nulo receba sangue contendo antígenos do sistema Rh, seu organismo pode reconhecer essas estruturas como estranhas e desenvolver anticorpos. Dependendo da situação, isso pode provocar uma reação transfusional grave. Por esse motivo, hospitais precisam adotar protocolos específicos quando esses pacientes necessitam de transfusão.
A condição também pode estar associada a alterações nas próprias hemácias. Pessoas com Rh nulo podem apresentar anemia hemolítica leve ou moderada desde o nascimento, resultado da destruição prematura das células vermelhas. As hemácias podem apresentar alterações de formato, menor elasticidade, mudanças na membrana e maior fragilidade.
Alguns casos de Rh nulo estão relacionados a determinadas formas hereditárias de anemia e à estomatocitose hereditária, condição que também pode provocar destruição aumentada das hemácias.











