O fenômeno do El Niño ganhou força e já coloca o Brasil diante da possibilidade de uma primavera marcada por temperaturas acima do normal e eventos climáticos extremos. Um novo boletim divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta que o país pode registrar de três a cinco ondas de calor entre setembro e novembro, acima da média de dois a três episódios esperados em anos sem a presença do fenômeno.
Segundo os dados analisados pelo instituto, anos sob influência do El Niño apresentam, estatisticamente, cerca de uma onda de calor adicional no período. O cenário se torna ainda mais preocupante diante do aquecimento persistente das águas do Oceano Pacífico, considerado um dos principais sinais de fortalecimento do fenômeno.
As projeções também chamam atenção para novembro e para os meses seguintes, quando os efeitos sobre as diferentes regiões brasileiras podem se intensificar.
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre, em geral, a cada dois a sete anos. Ele se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental, alterando padrões de ventos, pressão atmosférica e distribuição das chuvas em diversas partes do planeta.
Em 2026, o aquecimento vem apresentando uma evolução significativa. Segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), as temperaturas da superfície do Pacífico ficaram, em média, 1,5°C acima do normal entre maio e julho, avançando para cerca de 2°C acima da média em julho.
Entre o fim de julho e meados de agosto, algumas medições chegaram a 2,2°C a 2,6°C acima do padrão, sinal considerado pela organização como evidência do fortalecimento contínuo do fenômeno.
O calor também está presente abaixo da superfície oceânica. Em determinadas áreas, as águas chegaram a ficar mais de 0,8°C acima da média durante julho e o início de agosto, indicando que a anomalia térmica não está restrita à camada superficial.
Furacões mostram efeitos do aquecimento no Pacífico
Os efeitos do aquecimento do Pacífico também podem ser observados na formação de tempestades na região. Imagens registradas pelo satélite NOAA-21, por meio do instrumento VIIRS (Visible Infrared Imaging Radiometer Suite), mostraram três furacões simultaneamente no Oceano Pacífico Oriental: Lowell, Karina e Marie.

O registro foi feito na última quarta-feira (2), e a imagem de temperatura de brilho apresenta os sistemas em tonalidades mais escuras de roxo.
As projeções indicam que Lowell e Karina podem alcançar as categorias 3 ou 4, enquanto Marie tem possibilidade de se aproximar da categoria 3. A intensificação desses sistemas ocorre em um contexto de águas oceânicas mais quentes, que favorecem a formação e o fortalecimento de tempestades tropicais.
Brasil pode enfrentar seca, calor e incêndios
Os impactos do El Niño não devem ocorrer da mesma maneira em todo o território brasileiro. O planejamento elaborado pelo governo federal aponta diferenças importantes entre as regiões.
No Norte, a expectativa é de prolongamento do período seco, com dezembro aparecendo como um dos meses mais críticos. A redução das chuvas pode dificultar o acesso à água para consumo e produção, prejudicar a navegabilidade dos rios e aumentar o risco de incêndios. O cenário também pode provocar isolamento de comunidades que dependem dos cursos d’água para deslocamento e abastecimento.
No Nordeste, a preocupação está principalmente relacionada à agricultura. A perspectiva de redução das chuvas coloca áreas produtivas em alerta desde este mês até o fim do ano.
Já no Sudeste e no Centro-Oeste, a previsão aponta para chuvas mais escassas e atrasadas. A combinação entre pouca precipitação e temperaturas elevadas pode favorecer a ocorrência de incêndios e ondas de calor.
No Centro-Oeste, a agricultura também pode sofrer consequências devido à redução do volume de chuva. No Sudeste, a expectativa é de agravamento das ondas de calor e dos incêndios entre setembro e dezembro.
Governo reforça preparação para o fenômeno
Diante da possibilidade de um El Niño de intensidade excepcional, o governo federal estruturou uma estratégia de preparação envolvendo diferentes áreas.
Especialistas de 24 ministérios e integrantes de nove salas setoriais, voltadas para temas como incêndios, energia, combustíveis, defesa civil e saúde, passaram a atuar de maneira integrada em uma sala de situação.
Como parte desse esforço, houve neste ano um reforço orçamentário de R$ 1,35 bilhão para medidas adicionais de prevenção e enfrentamento dos efeitos esperados do El Niño.
Fundo Clima já movimentou bilhões
Os investimentos para enfrentar eventos climáticos extremos também foram ampliados nos últimos anos. De acordo com o plano apresentado pelo governo, o Fundo Clima mobilizou R$ 52 bilhões desde 2023, sendo R$ 35 bilhões somente em 2025.
Outro mecanismo citado é o Eco Invest, que, somado ao Fundo Clima, teria movimentado aproximadamente R$ 179 bilhões desde 2023.
A estratégia busca ampliar a capacidade de prevenção e resposta diante de fenômenos climáticos que podem afetar infraestrutura, produção agrícola, energia, abastecimento, saúde e defesa civil.











