Tartarugas-gigantes que durante décadas foram consideradas extintas estão novamente caminhando pela ilha de Floreana, no arquipélago de Galápagos, após uma ausência de aproximadamente 180 anos. O retorno foi possível graças a um programa de conservação que identificou animais pertencentes à linhagem da espécie de Floreana e passou a reproduzi-los antes de devolvê-los ao território ancestral.
A história começou muito antes da iniciativa de conservação. As tartarugas-gigantes chegaram às Galápagos vindas da América do Sul entre 2 milhões e 3 milhões de anos atrás e, ao longo da evolução, diferentes populações se adaptaram às condições específicas de cada ilha.
No passado, o arquipélago chegou a abrigar 14 espécies diferentes de tartarugas-gigantes. A caça e a introdução de animais invasores, como cães, cavalos e ratos, reduziram drasticamente essas populações. Em 2012, apenas 12 espécies permaneciam vivas, distribuídas por dez ilhas.
A espécie de Floreana foi a primeira das tartarugas-gigantes das Galápagos a desaparecer, por volta de 1850. Durante muito tempo, acreditou-se que seus exemplares haviam sido completamente eliminados.
A situação mudou em 2000, quando pesquisadores encontraram milhares de tartarugas com características incomuns nas proximidades do vulcão Wolf, na ilha Isabela. Como não sabiam inicialmente a origem daqueles animais, a equipe chegou a chamá-los de “alienígenas”.
A identificação só foi possível depois que pesquisadores liderados por James Gibbs, vice-presidente de Ciência e Conservação da Galápagos Conservancy, coletaram amostras de sangue e as enviaram à Universidade Yale. As análises genéticas mostraram que os animais pertenciam à linhagem de Floreana.
O aparecimento deles em Isabela, uma ilha diferente de seu território original, ainda é explicado por hipóteses. Uma possibilidade é que enchentes tenham transportado as tartarugas. Outra é que alguns exemplares tenham sido levados por marinheiros.
Caça quase eliminou centenas de milhares de animais
A redução das tartarugas-gigantes está diretamente ligada à história da ocupação humana das Galápagos. A partir do século 16, piratas e, posteriormente, baleeiros passaram a frequentar o arquipélago.
Os animais eram especialmente vulneráveis porque apresentavam uma característica que normalmente seria uma vantagem para a sobrevivência: conseguiam permanecer até um ano sem comida ou água. Para os marinheiros, isso significava que poderiam capturá-los e mantê-los vivos nos porões dos navios durante longas viagens, utilizando-os posteriormente como fonte de carne fresca.
Segundo especialistas, entre 100 mil e 200 mil tartarugas desapareceram das Galápagos ao longo de apenas dois séculos. A população, que anteriormente chegava a centenas de milhares de indivíduos, caiu para cerca de 200 mil a 300 mil animais em 2021, estimativa equivalente a apenas 10% a 15% dos números históricos.
Além da captura direta, os navegadores também contribuíram para a chegada de espécies invasoras que passaram a ameaçar as tartarugas e seus habitats.
Retorno à ilha de origem levou quase dois séculos
A descoberta dos animais da linhagem de Floreana em Isabela abriu uma nova possibilidade para a conservação da espécie. Organizações passaram a trabalhar na reprodução, criação e preparação dos animais para uma eventual reintrodução.
O Centro de Reprodução de Tartarugas Terrestres Fausto Llerena assumiu parte desse trabalho, incluindo a criação de exemplares da linhagem encontrada no vulcão Wolf.
Em fevereiro, 158 tartarugas-gigantes jovens foram finalmente soltas na ilha de Floreana, território ancestral da linhagem, depois de aproximadamente 180 anos de ausência.
Galápagos transformou tartarugas em símbolo da evolução
A recuperação das tartarugas ocorre em um arquipélago que também ocupa lugar central na história da ciência. Charles Darwin visitou as Galápagos em 1835, durante a viagem do HMS Beagle, experiência que posteriormente teria importância para o desenvolvimento de sua teoria da evolução.
As tartarugas-gigantes das ilhas não constituem uma única espécie. Populações isoladas em diferentes ilhas desenvolveram características próprias ao longo de milhões de anos, adaptando-se às condições particulares de cada ambiente.
Essa diversidade também explica por que a perda de uma população insular representa mais do que a redução do número de animais. Quando uma espécie desaparece de uma ilha, perde-se uma linhagem que passou milhões de anos se adaptando àquele território.











