Fábricas de uniforme escolar não performam como antes

Mudança no comportamento do consumidor, com a compra de menos itens e até opção por “desapegos” são “vilões”

20 de janeiro de 2024 às 10h00

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Fábrica de uniformes Elaine Gontijo produz, no período de alta demanda, cerca de 50 mil peças | Crédito: Divulgação/Elaine Gontijo

Quem vende uniforme escolar tem enfrentado uma mudança de comportamento por parte dos consumidores. Redução do número de produtos de cada vez, crescimento das vendas on-line e consumo mais consciente. Este último item sendo citado até como um possível motivo para a redução das vendas no varejo.

A percepção é de empresários experientes na área. Pertencentes ao setor de vestuário, mas sem dados para mapear as tendências do setor, as fábricas de uniformes administram os negócios de forma quase que solitária em meio ao universo das confecções. E se a indústria de confecções de Minas Gerais encerrou em queda o ano de 2023 e o setor de uniformes em geral performou bem, como o DIÁRIO DO COMÉRCIO informou esta semana, as fábricas de uniformes escolares têm percebido uma estabilidade atrelada a uma queda pequena, mas constante no setor.

Ao menos é o que revela o sócio-gerente da Uniformes Escolar NET, Amilton Soares. A empresa dele atende lojas revendedoras e comercializa em loja própria os produtos, mas não apresentou crescimento esse ano em relação ao ano passado. O lado positivo é que também não amargou prejuízo. “Temos sentido um movimento bem parecido com o do ano passado. Acredito que o fechamento de uma grande fábrica de uniformes na cidade, pode ter contribuído para não reduzirmos o movimento”, explica. 

Ele conta que o que se tem percebido são mudanças de comportamento. A fábrica atende cerca de 20 escolas e confecciona cerca de 15 mil peças em média por mês. “Os lojistas ano passado demandaram mais cedo, este ano eles seguraram os pedidos e só estão fazendo agora no início do ano”, comenta. 

Outra mudança de comportamento percebida por Soares é o aumento das vendas on-line. Representando cerca de 25% do faturamento da empresa, ele conta que este ano tem percebido um aumento dos pedidos em 15% de forma virtual. “É uma tendência, acho que deve crescer ainda mais”, diz.

Na fábrica de uniformes escolares de Ipatinga, no Vale do Aço, Uniforma, a sócio-proprietária, Wanessa Araújo vem notando uma redução nas vendas desde o período da pandemia. “Nós chegamos a ficar dez meses sem vender uniformes escolares e desde esta época noto uma redução do volume de peças vendidas para as famílias”, comenta. 

A empresa que atende cerca de 15 escolas na cidade e produz cerca de 20 mil peças no mês de dezembro, considerado o pico de produção, também vende os produtos no varejo em loja própria. A redução do número de peças compradas pelas famílias ela atribui ao consumo consciente e a tendência de as pessoas valorizarem a economia circular. 

“Hoje é muito comum os pais trocarem, doarem e até venderem uniformes nos grupos de WhatsApp. E isso pode sim ter afetado as vendas no varejo nos últimos quatro anos”, constata a empresária.

Elaine Gontijo está no mercado de uniforme escolar há 40 anos. A fábrica homônima atende 9 escolas em Belo Horizonte e produz na alta demanda cerca de 50 mil peças. Ela também percebe uma redução nas vendas do artigo principal e também cita a venda de uniformes usados com possível responsável pela redução de vendas no varejo. “No meu caso, meus produtos são muito bons e duram muito. As crianças perdem roupa muito fácil, elas crescem e quando um pai vai vender um produto meu usado, ele está novinho”, diz.

O surgimento de pequenas fábricas trabalhando com matérias-primas chinesas de pior qualidade também contribuíram para a pulverização das vendas, na opinião da empresária. “O tecido chinês é mais barato, o que permite pequenas fábricas produzirem a um preço menor e sob demanda, mas de menor qualidade também”, diz.

Este ano, Elaine Gontijo tem feito uma promoção de uniformes de escolas que terão o  layout alterado, mas que ainda serão aceitos por dois anos. “Nesse caso, reduzi 20% no valor total e não aceito troca. É uma forma da gente queimar o estoque que não será renovado e os pais fazerem uma economia”, revela. 

Os canais digitais também são um ponto de venda importante na Elaine Gontijo Uniformes. Entretanto, ela tem percebido que as compras neste formato proporcionam troca em 90% das vendas. “Eu sempre aconselho meus clientes a virem até a loja, além de receberem um atendimento personalizado, eles não pagam frete e evitam as trocas”, conclui.

Crédito: Adobe Stock

Gestão responsável dá destino certo a uniformes inutilizados

A gestão responsável é uma tendência nas organizações. No setor dos uniformes, a preocupação com o descarte de retalhos ou os produtos fora de linha têm aumentado e gerado ações que dão um destino certo. Na Eliane Gontijo Uniformes, os produtos fora de linha ou com pequenos defeitos são doados para instituições carentes. “Eu já possuo algumas parcerias e mando minhas doações para outro estado em função de segurança”, conta Eliana Gontijo.

Outra iniciativa não vem das indústrias, mas do consumo cada vez mais consciente e da necessidade de fazer a economia circular. A partir de um incômodo pessoal, a  psicóloga do projeto Querubim, uma associação que contribuiu com a formação de crianças e jovens, Eliana Batista, passou a recolher e customizar uniformes escolares e transformá-los em pijamas. “A gente borda as peças à mão para retirar as logomarcas das escolas e o que não tinha uso para uns, vira pijama ou até roupa de passeio para outros”, revela. 

Ele revela que a ideia surgiu ao não saber o que fazer com os ‘achados e perdidos’ não reclamados da própria escola onde dava aula de dança. Foi conversando com uma enfermeira que ela resolveu dar um destino social para os bens perdidos. “Havia muitos uniformes entre os objetos e eu sempre participei de ações sociais. Então, foi da conversa com uma funcionária de um hospital que me veio a ideia de transformar os uniformes em pijamas”, diz.

Na conversa, a enfermeira pedia doações para famílias carentes que chegavam do interior necessitando de roupas, inclusive pijamas. “E foi ali que o projeto surgiu”, conta. Ainda de forma informal, a ideia tem ganhado corpo e este ano, como as doações estão em volume maior, serão customizadas dentro do projeto Querubim. 

“As doações estão dez vezes maiores do que as de outros anos que eu recolhi. Então, pedi ajuda a Magda Coutinho (responsável pela Associação) para darmos conta das customizações. “Não temos máquinas, precisamos, agora, conseguir retalhos de tecidos, linhas, materiais e ajuda para os bordados. Agora, vamos atrás dos voluntários”, comenta Eliana Batista.

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