Fatores de crescimento e riscos para a economia brasileira

30 de novembro de 2023 às 0h17

Após a flexibilização no período pós-pandemia, o crescimento da atividade econômica brasileira tem surpreendido de forma positiva, a despeito da recente desaceleração. Ao analisar os resultados de 2021 e 2022, constatamos que o Produto Interno Bruto (PIB) nacional foi superior às expectativas do mercado, transmitidas pelo Boletim Focus.

Essas surpresas encontram respaldo em uma variedade de fatores, tanto de natureza estrutural quanto conjuntural. Do ponto de vista conjuntural, podemos destacar a dinâmica global de crescimento observada até o momento, os estímulos locais por meio de gastos públicos, as políticas de preservação do emprego e da renda, a recuperação e subsequente resiliência do mercado de trabalho e a safra recorde de grãos registrada neste ano, fato que impulsionou o crescimento do PIB observado no primeiro semestre.

Sob uma perspectiva estrutural, destacam-se componentes das reformas macro e microeconômicas, como a reforma da Previdência, a reforma trabalhista – que possivelmente propiciaram ganhos de produtividade – e o lançamento de quase uma dezena de novos produtos financeiros no mercado de capitais, facilitando o acesso de industriais e produtores a recursos para investimentos produtivos.

A evolução do mercado de trabalho merece uma análise detalhada. Depois de atingir o pico de 14,9% no primeiro trimestre de 2021, a taxa de desemprego passou por uma robusta recuperação, impulsionada pela melhoria na atividade econômica. Nos últimos três anos, essa taxa foi reduzida em 7,2 pontos percentuais, alcançando o nível mais baixo desde 2015 e resultando em uma diminuição de, aproximadamente, 7 milhões de desempregados. Essa queda expressiva reflete um aumento notável na população ocupada, que atingiu quase 100 milhões de pessoas no terceiro trimestre de 2023.

Acompanhando esse aumento na ocupação, a massa salarial atingiu recordes históricos, desempenhando um papel fundamental no impulso ao consumo das famílias.

Olhando para o emprego formal, entre 2021 e setembro deste ano, foram criados 6,4 milhões de novos postos de trabalho. No que diz respeito à renda, dados provenientes das Convenções Coletivas de Trabalho revelam reajustes salariais nominais em decréscimo, alinhados com o processo de desinflação. Apesar do declínio em termos nominais, os reajustes ficaram consistentemente acima da inflação acumulada nos últimos sete meses. Isso serve como mais uma evidência da recuperação da renda em nossa economia.

Além dos dados positivos do mercado de trabalho, parte do crescimento recente pode estar associado a um aumento do PIB potencial, indicador que reflete o nível máximo de produção sustentável de uma economia a longo prazo, sem gerar pressões inflacionárias. Com o atual nível do emprego, esperava-se que os salários reais estivessem sob maior pressão do que o observado atualmente, com impactos relevantes na inflação de serviços.

Apesar dos impulsionadores do crescimento, há riscos específicos que podem comprometer o cenário positivo. O primeiro, talvez mais impactante no contexto internacional, é a situação econômica da China. Como principal parceira comercial do Brasil, recebendo quase 30% de nossas exportações, uma desaceleração mais pronunciada na economia asiática poderia ter um impacto direto em nossa atividade econômica. O segundo fator, também de natureza internacional, está relacionado ao aumento nas taxas de juros nas principais economias, algo que afeta o custo do crédito e pode resultar em uma expansão econômica menor do que a projetada até então.

No rol de fatores de riscos internos, além das preocupações fiscais e de algumas pautas regulatórias, destaca-se o desempenho do setor agropecuário. Após o crescimento de dois dígitos, impulsionado pela safra recorde de grãos deste ano, antecipa-se uma desaceleração para 2024. A primeira estimativa da Conab para a safra atual já sinaliza esse processo, indicando uma leve queda na produção devido a eventos climáticos, como a seca no Norte e Nordeste e chuvas acima da média no Sul, desencadeados pelo El Niño.

O panorama econômico atual apresenta aspectos positivos, marcados pelo vigor na recuperação do mercado de trabalho. Contudo, é essencial estarmos atentos aos riscos, tanto internacionais, como domésticos.

* Especialista em Educação Financeira no Grupo Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.

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