Economia Para Todos

China em foco: a desaceleração atual é algo estrutural ou conjuntural?

15 de novembro de 2023

A China desempenha um papel importante na economia mundial, algo que se estende ao Brasil. Essa relação é marcada por uma forte parceria econômica, que abrange comércio, investimentos e cooperação em diversas áreas.

Foi-se a época na qual os Estados Unidos representavam o principal destino das exportações brasileiras. Hoje, o país asiático responde por 27% de todo o produto vendido pelo Brasil ao resto do mundo, configurando-se no seu principal parceiro comercial. As exportações brasileiras para o país de Confúcio incluem produtos como soja, minério de ferro, petróleo cru, carne bovina, entre outros. Essa relação é essencial para a balança comercial brasileira, contribuindo para a receita do País, dada sua posição superavitária.

Para além da relação comercial, a China investe em projetos de infraestrutura no Brasil, o que contribui para a geração de empregos e estimula o desenvolvimento econômico. Tais investimentos envolvem setores como energia e transporte. Os dois países também buscam parcerias em setores de alta tecnologia, como telecomunicações e energia renovável, o que tem o potencial de estimular a inovação por aqui.

No âmbito estadual, Minas Gerais, conhecido por sua rica produção mineral, se beneficia da demanda chinesa por minério de ferro. A China é o maior consumidor mundial desse recurso, o que acaba impulsionando a economia comandada por Romeu Zema.

No entanto, é importante destacar que o país governado por Xi Jinping enfrenta diversos desafios, cujos desdobramentos podem impactar seus parceiros comerciais. Entre as preocupações, há questões de curto prazo, como o crescimento mais fraco da atividade econômica, e fatores estruturais, devido, especialmente, à fraqueza do setor imobiliário, às tensões geopolíticas e à percepção de um ambiente de negócios doméstico deteriorado.

Ao contrário do que se observou em muitos países, o processo de reabertura pós-pandemia não foi tão aquecido na segunda maior economia do mundo. A taxa de crescimento do PIB apresenta uma média de 4,1% desde 2021, abaixo da tendência observada em anos anteriores (6,6%). A explicação para o ritmo mais fraco, frente às demais economias, pode residir, para além dos fatores estruturais, na ausência de estímulos fiscais às famílias.

Enquanto outros países, incluindo os EUA, países da Europa e alguns emergentes, implementaram substanciais transferências governamentais para as famílias, impulsionando o consumo na reabertura pós-Covid, a China não adotou medidas semelhantes. Isso pode ter um impacto estrutural mais significativo, especialmente devido à limitada rede de proteção social no país, o que pode levar as famílias chinesas a manterem níveis mais altos de poupança.

Além disso, o ritmo de reabertura da economia chinesa destoou do resto do mundo. Enquanto outros países continuavam em modo de flexibilização, a China reduziu os estímulos em 2021. A partir de 2022, enquanto a China fornecia estímulos, o resto do mundo os retirava. Nesse contexto, as exportações chinesas perderam ímpeto à medida que o consumo global mudou de bens para serviços.

Outro desafio é que, diante dos impactos da Covid, as autoridades passaram a focar em políticas que visam reduzir a desigualdade de renda. Embora o objetivo seja louvável, sua implementação tem sido desafiadora e pode afetar negativamente o potencial de crescimento, a confiança e o dinamismo do setor privado. Medidas regulatórias rigorosas foram adotadas em setores como tecnologia, educação privada e entretenimento. Com um setor privado com baixa confiança, o dinamismo do investimento produtivo tende a cair.

Por último, as tensões geopolíticas entre os EUA e a China têm se intensificado, gerando repercussões negativas para a economia global. Os investimentos estrangeiros diretos na maior economia asiática diminuíram significativamente, indicando um maior isolamento e um franco processo de desaceleração. Isso, por suposto, afeta a demanda chinesa por produtos líderes da pauta exportadora brasileira e mineira.

A desaceleração do crescimento chinês, combinada com questões estruturais, sinaliza a necessidade de uma abordagem cautelosa por parte de seus parceiros comerciais. Por aqui, podemos sentir os reflexos dessa conjuntura, o que exige estratégias para enfrentar os desafios e explorar oportunidades emergentes em um cenário em transformação.

* Especialista em Educação Financeira no Grupo Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.

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