Viver em Voz Alta

Jorge, um brasileiro

Após quase 60 anos, obra de Oswaldo França Júnior permanece incrivelmente atual

Oswaldo França Júnior nasceu na cidade mineira do Serro, em 21 de julho de 1936. Antes de dedicar-se exclusivamente à literatura, foi aviador da Força Aérea Brasileira (FAB), da qual o expulsaram em 1964, depois do golpe militar (em sua ficha, a recusa à ordem de bombardear o Palácio Piratini, em 1961, em plano idealizado por seus superiores para eliminar o então governador do estado, Leonel Brizola).

Certamente o seu romance mais famoso, “Jorge, um brasileiro” foi publicado em 1967 e ganhou o mais importante prêmio literário da época, o Walmap, com júri formado por Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antônio Olinto. Levado ao cinema pelo diretor Paulo Thiago, em 1988, também inspirou a série “Carga Pesada”, da Rede Globo, protagonizada por Antônio Fagundes e Stênio Garcia.
Sem divisões por capítulos, a obra é narrada em primeira pessoa por um caminhoneiro que conta suas viagens pelo país, especialmente por Minas Gerais. Ele se dirige a um interlocutor a quem chama de ‘você’, obedecendo ao fluxo de sua consciência, elemento que ajuda a explicar a forte presença de repetições e digressões, além do tom coloquial e intensamente influenciado pela linguagem oral e espontânea.

O livro focaliza o interior do país, o chamado “Brasil profundo”, suas paisagens, suas rodovias e, sobretudo, a “gente de beira de estrada”, raramente tratada pela literatura brasileira, acostumada a ambientar suas tramas nas grandes cidades e em capitais como Rio de Janeiro ou São Paulo. Na história, o patrão de Jorge ordena que ele vá de Belo Horizonte a Caratinga e que de lá retorne com um carregamento de milho, num prazo que não pode descumprir. Ao longo do trajeto, o personagem enfrenta várias dificuldades e supera impressionantes desafios, seja os propostos pelas chuvas, pelas quedas de barreiras ou pelas precárias condições do tráfego, seja os gerados por acidentes causados por motoristas imprudentes.

As duras relações de trabalho são temas centrais do romance, que mostra um país em que é eventual a presença da lei, do Estado e do Direito, com o consequente predomínio da informalidade e, muitas vezes, da exploração e das ilegalidades. Mesmo escrito há quase 60 anos, “Jorge, um brasileiro” – como visto – permanece incrivelmente atual, sendo leitura atraente para quem busca decifrar um pouco desse lugar complexo e misterioso chamado Brasil.

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