Plano Geral

Xica da Silva ainda desafia o poder, agora em 4K

Fenômeno dos anos 1970, filme é marcado por contrastes
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Há algo de fascinante na ascensão de Xica da Silva no filme de Cacá Diegues: ela não luta contra o sistema colonial apenas pela força, mas pelo desdém, pela ironia. Zezé Motta transforma a volúpia em ferramenta política e o figurino da corte em um delicioso exercício de escárnio. Ao vestir-se como a própria aristocracia que a oprimia, Xica ridiculariza a opulência colonial e torna-se o reverso vivo das forças da Coroa. Eis a rainha dos diamantes: a ex-escrava que fez a elite lusa curvar-se ao seu desejo, a patrona da “safadeza lírica” cantada por Jorge Ben.

A trama, ambientada na capitania de Minas Gerais no século 18, acompanha a ascensão meteórica da ex-escrava que, ao tornar-se amante do contratador de diamantes João Fernandes, passa a mandar e desmandar na região, desafiando a estrutura de poder da metrópole. É uma trajetória de excessos e deboche que, na tela, ganha contornos deliciosamente épicos.

A cena de Xica, com enfado diante do mar, é genial – um momento de suspensão que remete à melancolia contemplativa de um Werner Herzog. Mas é na dança, na nudez despida de pudores e no sorriso estelar de Zezé Motta, que o filme encontra seu eixo gravitacional.

Cinquenta anos após sua estreia, o filme ganha um relançamento nacional nos cinemas, marcado para o dia 16 de julho pela Sessão Vitrine Petrobras, com o tratamento que sua importância exige: uma restauração em 4K que devolve o brilho original à fotografia de José Medeiros à belíssima direção de arte de Luiz Carlos Ripper. A tecnologia resgata a opulência barroca, não para exaltá-la, mas para torná-la o cenário perfeito para o deboche da protagonista.

Fenômeno único dos anos 1970, Xica da Silva é uma obra de contrastes. Se, por um lado, o olhar de Cacá Diegues patina no anacronismo ao reforçar o estereótipo da mulher negra hipersexualizada, por outro, a obra se agiganta como uma sátira feroz da nossa fundação. Ao encantar o mundo com o barroco mineiro, o filme expôs as fraturas de nossa gênese multirracial com um vigor político que resistiu ao tempo.

Prenúncio irônico dos ecos de independência que fermentavam em Minas Gerais, Xica continua sendo a nossa metáfora mais corrosiva: a mulher negra que, entre o prazer e a estratégia, revelou o vazio de um império que ignorava a proximidade do seu próprio fim. Ao consagrar Zezé Motta como um dos pilares do nosso cinema, o filme reafirma sua maior virtude: a audácia de um discurso sobre poder e liberdade que, meio século depois, permanece assustadoramente atual.

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