Editorial

Crédito arriscado

Volta do crediário próprio pode impulsionar vendas, mas risco é maior com inadimplência elevada e crédito bancário restrito
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Crédito arriscado
Foto: José Cruz / Agência Brasil

Diante de um crédito bancário mais caro e seletivo, muitos comerciantes têm redescoberto o crediário próprio como forma de manter as vendas em pé. A lógica é sedutora, uma vez que não depende de bancos ou fintechs. A loja financia o cliente e fecha a venda que, de outra forma, poderia escapar. O problema talvez seja o momento escolhido. Reativar o crediário justamente quando a inadimplência das famílias brasileiras segue pressionada é trocar um risco conhecido por outro, maior e menos visível.

Os indicadores mostram que o cenário exige cautela. Embora o carnê volte a ganhar espaço no comércio, isso não significa necessariamente maior capacidade de pagamento do consumidor. Pelo contrário. Hoje, 96,3% das famílias endividadas possuem dívidas no cartão de crédito, enquanto a participação do crediário entre os endividados passou de 21,6% em 2019 para 30,6% atualmente. Em muitos casos, o consumidor recorre ao crédito direto da loja porque já encontrou limites nas modalidades tradicionais de financiamento.

Em reportagem publicado no Diário do Comércio, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) alertou para os riscos de oferecer crediário para impulsionar as vendas. O estabelecimento pode até mesmo ter que suportar uma quebra no fluxo de caixa caso a inadimplência avance.

Ao parcelar diretamente com o consumidor, o lojista deixa de ser apenas comerciante e passa a operar como financeira só que sem o que sustenta esse segmento, como o funding barato, equipes especializadas em análise de crédito e estrutura de cobrança. A decisão de aprovar ou não um cliente, muitas vezes, é tomada no calor da venda.

Esse descasamento tem consequências concretas. A loja compra do fornecedor em prazos curtos, mas recebe do cliente em parcelas longas. Esse é um desenho perigoso justamente quando os juros permanecem elevados e o capital de giro é escasso.
Há ainda um efeito manada preocupante. Quando um concorrente passa a oferecer crediário, os demais sentem-se pressionados a fazer o mesmo para não perder vendas. O risco é que todo o setor aumente sua exposição.

Isso não significa condenar o instrumento. Crediário bem estruturado, com política de crédito clara, limite de exposição sobre o faturamento e reserva de caixa, pode ser um diferencial competitivo.

Antes de reativar o crediário, o comerciante precisa fazer a pergunta que vale mais do que qualquer meta de vendas. Se a inadimplência continuar avançando, quanto disso a minha empresa realmente consegue suportar?

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