Bets e a mesa vazia
A regulamentação das apostas esportivas costuma ser defendida pelos potenciais ganhos de arrecadação para o Estado. A evidência empírica, contudo, revela um custo social expressivo. Um estudo recém-publicado no National Bureau of Economic Research (NBER), “Apostando o dinheiro do pão: legalização das apostas esportivas e suficiência alimentar”, mostra que a legalização provoca um aumento imediato no engajamento com as apostas, elevando os gastos mensais per capita para cerca de US$ 47 e impulsionando em até 64% as buscas por plataformas de apostas. O dado mais preocupante, porém, aparece no orçamento das famílias: entre adultos em idade ativa sem diploma universitário, a liberação dos jogos reduziu em 2,1% a suficiência alimentar dos domicílios dos Estados Unidos. Quando a análise considera apenas os apostadores ativos, esse impacto se amplia para uma queda de 10,5%.
Os efeitos observados não se restringem aos primeiros meses após a regulamentação. Os pesquisadores identificaram um padrão cíclico de deterioração da segurança alimentar: a escassez de alimentos surge nos dois primeiros meses após a legalização, persiste por até cinco meses e volta a se intensificar durante as temporadas de grandes competições esportivas, como a NFL (fruto da publicidade excessiva, talvez?). O impacto também é desigual entre os grupos populacionais. Adultos de 25 a 44 anos e minorias étnicas são os mais afetados, registrando uma redução de 3,6 pontos percentuais na probabilidade de manter alimentos suficientes em casa.
Os autores também investigaram o mecanismo por trás desse fenômeno. A análise dos indicadores auxiliares mostra que a piora da segurança alimentar não decorre do aumento do desemprego ou de problemas de saúde mental, mas do agravamento do estresse financeiro. Após a legalização, as famílias passaram a enfrentar uma alta de 7,7% na dificuldade para arcar com despesas rotineiras, reduzindo gastos com alimentação fora de casa e registrando uma queda de 2,4 pontos percentuais na capacidade de manter o aluguel em dia. Em uma perspectiva macroeconômica, a extrapolação dos resultados para apenas nove estados norte-americanos indica que cerca de 284 mil domicílios adicionais passaram a enfrentar insuficiência alimentar, gerando mais de US$130 milhões por ano em despesas médicas extras. Esse custo corresponde a 23,1% de toda a arrecadação tributária obtida com as apostas nesses estados.
Esse diagnóstico funciona como um espelho da nossa realidade, onde a expansão das bets reproduz sintomas semelhantes. Em um País no qual milhões de famílias de baixa renda já convivem com elevado endividamento, juros altos e orçamentos apertados, os aplicativos de apostas tendem a atuar como um dreno adicional sobre recursos destinados a necessidades essenciais, como a alimentação.
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