Caminhos sustentáveis

O dia em que ar poluído será transformado em combustível

Colocar o CO₂ em uma cadeia produtiva circular transforma o resíduo em um insumo produtivo valioso
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Transformar ar em combustível pode parecer ficção científica, mas o Japão mostrou que essa ideia está mais próxima da realidade do que imaginamos e esse avanço já passou por duas etapas muito importantes no país do sol nascente.

A primeira foi um estudo conduzido por pesquisadores da Hokkaido University e do National Institute of Advanced Industrial Science and Technology (AIST), que desenvolveu um sistema contínuo capaz de capturar CO₂ diretamente do ar e convertê-lo em combustíveis sintéticos. O novo processo é mais eficiente do que os atualmente conhecidos, já que utiliza temperaturas menores entre 150º e 300º C.

A segunda foi a construção de uma planta experimental em Tsukuba, que já consegue produzir combustível líquido de forma contínua. Ali, CO₂ e vapor d’água passam por um processo de co-eletrólise que gera uma mistura gasosa adequada para a síntese de combustíveis. Em seguida, um catalisador híbrido aumenta a eficiência geral do sistema e reduz os rejeitos, gerando um combustível sintético com densidade energética semelhante à da gasolina e do diesel, mas produzido a partir de ar e água.

Na prática, isso significa colocar o CO₂ dentro de uma cadeia produtiva circular, em que ele deixa de ser um resíduo e passa a ser um insumo produtivo valioso. Os resultados disso seriam a eliminação da necessidade de extração de petróleo para produção de combustíveis. Não é uma solução pronta, nem barata, nem simples, tampouco se pode dizer que é a bala de prata da energia renovável, mas, em um contexto de urgência climática em que vivemos, também não é uma solução descartável. Ela emula um processo natural que a natureza precisa de milhares de anos para executar.

Para o Brasil, essa pesquisa abre algumas janelas interessantes já que o hidrogênio é um insumo importante no processo e temos excelentes condições para produzi-lo a partir de fontes renováveis. Além disso, temos uma indústria de biocombustíveis madura e uma base científica forte em catálise e processos químicos, o que poderia fazer com que também participássemos da evolução desse processo.

Por fim, para quem acha que a produção de combustíveis sintéticos a partir de CO₂ substitui o etanol, o biodiesel, o SAF ou outros combustíveis renováveis, é importante lembrar que a demanda por energia é tão grande e tão urgente que essa nova tecnologia no máximo conseguiria ser uma solução complementar a todas as outras que já existem. O seu grande diferencial é a possibilidade de reduzir a pressão pela descarbonização, ao mesmo tempo em que reduz a pressão no sistema climático mundial. Mas isso só será possível se a tecnologia avançar a o de fazer com que o CO₂ fosse capturado diretamente das linhas de produção altamente geradores de CO2.

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