Bolhas, pontes e o desafio da convivência: o que a comunicação tem a ganhar com a diversidade?
Vivemos um tempo curioso. Nunca tivemos tantas possibilidades de conexão e, paradoxalmente, nunca estivemos tão confinados em espaços em que ouvimos apenas aquilo que confirma nossas próprias convicções. Essa foi uma das principais reflexões que ficaram para mim do 10º Seminário Abracom Minas – A Comunicação entre Bolhas & Pontes – que tive a oportunidade de participar na semana passada. O evento trouxe insights fundamentais para quem trabalha com comunicação, cultura organizacional e diversidade. E é um pouco deles que vou compartilhar com vocês na coluna desta quinzena.
Uma das provocações mais instigantes veio da palestra de Paulo Emediato, que apresentou um conceito poderoso: a fricção. Segundo ele, o grande problema das bolhas digitais é justamente a ausência dela. Nas bolhas não há atrito, questionamento ou confronto saudável de ideias. Estamos cercados por pessoas que validam nossas crenças, nossos valores e nossa visão de mundo. A fricção passa a acontecer apenas quando encontramos “o outro” — e, pouco a pouco, passamos a evitar esse encontro.
Sob a perspectiva da diversidade e inclusão, esse talvez seja um dos maiores desafios do nosso tempo. Afinal, a inclusão não começa quando todos pensam igual. Ela começa exatamente quando nos dispomos a conviver com pessoas que vivem, pensam, sentem e interpretam o mundo de maneiras diferentes da nossa. A diferença não é um obstáculo à convivência; ela é a própria matéria-prima da aprendizagem, da inovação e da construção coletiva.
Paulo trouxe ainda perguntas que merecem ecoar dentro das organizações: “Qual problema você está resolvendo com a sua comunicação?” e “A sua estratégia de comunicação serve a quem?” Se comunicar é apenas reforçar certezas, deixamos de cumprir uma das funções mais importantes da comunicação: abrir espaço para a dúvida.
E talvez nada seja mais perigoso para uma sociedade do que perder a capacidade de duvidar. Como o palestrante provocou, “as pessoas não têm a menor ideia daquilo que elas têm absoluta certeza”. Sem dúvida, desaparece a curiosidade. Sem curiosidade, desaparece a escuta. E sem escuta não existe inclusão.
Essa reflexão encontrou um diálogo muito rico com a palestra de Vânia Bueno. Para ela, as bolhas surgem quando deixamos de nos ouvir enquanto sociedade, quando o outro deixa de existir. E ela nos provoca a pensar: como podemos conviver melhor entre nós?
A resposta passa, necessariamente, pelo reconhecimento de que cada pessoa representa uma comunidade de experiências, histórias e referências. Nossa própria certeza pode não ser o melhor caminho. Por isso, segundo Vânia, o ponto de virada está em aprender a coletar diferentes perspectivas vindas de diferentes bolhas. Em um mundo complexo, quem faz as melhores perguntas costuma encontrar as melhores soluções.
Sua proposta do “Ciclo da Convivência Produtiva” oferece um caminho inspirador. Primeiro, conhecemos o outro. Da convivência nasce a confiança. Da confiança surge o compartilhamento. E somente então conseguimos cocriar. Não existe inovação onde existe apenas repetição de pensamento, onde todas as vozes são iguais. Não existe inclusão quando a diferença permanece do lado de fora da conversa.
Talvez o maior convite deixado pelo seminário seja justamente este: construir pontes exige disposição para atravessá-las. Exige coragem para sair das nossas bolhas, revisitar nossas certezas e reconhecer que o comum não significa fazer para as pessoas, mas fazer com elas.
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