Audrey Hepburn: refúgio em tempos sombrios
Audrey Hepburn, belga, morreu na Suíça, numa aldeiazinha de nome Tolochenaz, em 1993. Fez sensação mundo afora por mais de quatro décadas, morreu aos 63. Manteve-se sempre no cume. Converteu-se em emblema de elegância, de sofisticação.
Nascida de um banqueiro britânico e de uma baronesa holandesa, com ascendência que remonta às monarquias francesa e inglesa. Sua estreia como protagonista em “A Princesa e o Plebeu” (1953), sob a direção de William Wyler, rendeu-lhe um Oscar e a elevou ao patamar das grandes lendas do cinema.
Movida por um profundo senso humanitário, ela integrou a resistência antinazista durante a guerra. Na juventude, dedicou-se ao balé, conta-se, inclusive, que utilizava as sapatilhas para transportar mensagens secretas sob a fachada dos ensaios. Sob o veredito de uma professora que questionou seu talento e estatura, redirecionou sua vida. Foi corista, foi fotógrafa.
Já estrela, a Paramount a mantinha em sua folha de pagamentos, tanto ela quanto a figurinista que mais papou estatuetas da Academia, Edith Head. Foram, pasmem, oito Oscars. Audrey, na tela, sob sua batuta, vestia Givenchy. Um estouro.
Protótipo de gata borralheira, ela cativa no implausível: como fazer dois irmãos trilhardários, leiam-se: William Holden e Humphrey Bogart, se apaixonarem pela filha de um chofer simultaneamente? Hepburn tinha esse dom de arrastar nossa crença, por mais inverossímeis que fossem as situações. Sem culpa, ainda mais para sua década, “Sabrina” (1954), de Billy Wilder, representa a independência feminina, principalmente no campo sentimental, ao trocar um irmão pelo outro. Para eles, valeu o sentimento mais puro embalado por La Vie en Rose.
Como fecho sobre o filme, é necessário acrescentar a deliciosa cena em que, na universidade de culinária em Paris, ela está se “aperfeiçoando” na arte do soufflé, mas os pensamentos voam, apaixonados. Eles estão em Long Island e em Humphrey Bogart. Isto posto, ela mal aprende a técnica de partir um ovo.
Depois veio “Bonequinha de Luxo” (1961). Hepburn na saída de emergência do prédio de tijolinhos em Manhattan, toalha na cabeça, violão. Enquadramento: vão da escada, o parapeito, a mulher esbelta. Súbito close-up: aquelas bochechas de porcelana, o queixo aguçado, o nariz olimpiano. Ela diz “oi” suavemente para alguém fora do quadro. Godard uma pinoia.
Audrey foi embaixadora das Nações Unidas, recebeu o Tony (o Oscar do teatro) e inúmeros louros de carreira, os chamados Life Achievement Awards, sem contar Oscar, Bafta e tantos outros. É a sagração do artista. Em tempos sombrios como os nossos, é o agridoce que convém rever.
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