Minas na beirada
Há um tipo de tragédia que se instala devagar o suficiente para ser ignorada. Minas Gerais acumula, neste momento, 34.849 pessoas vivendo nas ruas, apenas 557 a menos que o Rio de Janeiro, segundo vice-líder nacional de um ranking que nenhum estado deveria querer escalar. Quando os números chegam tão perto de um limiar simbólico, algo precisa ser dito com clareza: isso não é uma tendência. É uma crise em curso, documentada, mensurável, e, portanto, evitável.
O Brasil registrou 388.855 pessoas em situação de rua em maio de 2026. Mais de 61% delas estão no Sudeste. São Paulo concentra o maior contingente absoluto, com 159.290 pessoas. Mas o que distingue Minas no interior desse quadro nacional não é apenas o volume: é a capilaridade do fenômeno. Enquanto na maioria dos estados a população de rua se concentra nas capitais, em Minas mais da metade dessas pessoas está espalhada pelo interior. Uma crise difusa é também uma crise mais difícil de ver, de contar e, sobretudo, de enfrentar.
É tentador atribuir o crescimento a fatores conjunturais – a pandemia, a crise econômica, o desemprego. Esses elementos existem e têm peso real. Mas usá-los como explicação exclusiva é uma forma sofisticada de desviar o olhar do que está sob controle do poder público: a insuficiência das redes de acolhimento, a ausência de políticas habitacionais robustas, a falta de integração entre saúde mental, assistência social e moradia. A crise pós-pandemia não criou o problema, ela acelerou e escancarou o que já estava lá.
O Brasil tem hoje quase 389 mil pessoas sem teto. Esse número não é neutro: ele é o resultado acumulado de décadas de desinvestimento habitacional, de desmonte de redes de saúde mental, de precarização do trabalho e de enfraquecimento dos vínculos comunitários. Minas Gerais, com sua crise distribuída por centenas de municípios, enfrenta uma versão particularmente complexa desse desafio e precisa de uma resposta que esteja à altura da sua dimensão.
O segundo lugar nesse ranking não é uma fatalidade. É uma escolha, feita ou omitida, dia a dia, em orçamentos, em prioridades, em políticas que chegam tarde demais ou pequenas demais. Ainda há tempo para que Minas não confirme essa marca. Mas o tempo, como os números mostram, está se esgotando.
Os dados citados neste editorial são do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), vinculado aos Polos de Cidadania da UFMG, e do Cadastro Único do Governo Federal (CadÚnico), referentes a maio de 2026.
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