Editorial

O tarifaço em movimento

Anúncio das novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros reabre disputa comercial entre o Brasil e os Estados Unidos
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O tarifaço em movimento
Foto: Alan Santos/PR

O anúncio das novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros, confirmado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), reabre uma disputa comercial que se arrasta desde o ano passado e que, mais uma vez, testa a capacidade do País de responder com estratégia, não apenas com indignação.

A reação do governo brasileiro foi imediata: acionamento da Lei de Reciprocidade Comercial e retomada do tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). O gesto tem valor político, mas sua eficácia prática ainda é incerta e dependerá de como as próximas semanas se desenrolarem.

Para Minas Gerais, o quadro exige atenção redobrada. O Estado tem participação relevante em cadeias produtivas diretamente afetadas pela disputa, do café à siderurgia, passando pelo agronegócio e pela indústria de transformação. A publicação de uma lista de produtos isentos da nova taxação, com mais de dois mil itens, sinaliza que Washington reconhece o custo de uma tarifa generalizada, mas não resolve a incerteza para os setores que permanecem na mira.

É esse ponto que merece destaque: o tarifaço não é um evento fechado, é um processo em curso. Desde o ano passado, a relação entre Brasília e Washington alterna entre escalada e sinais de distensão, entre ameaças de tarifas de até 50% e listas de exceção que se ampliam e se revisam. Tratar o episódio como fato consumado é subestimar sua natureza mais perigosa: a de uma pressão que se reconfigura semana a semana, conforme o cálculo político de cada lado.

Vale lembrar que a disputa nunca foi puramente comercial. Desde sua origem, o tarifaço esteve atravessado por questões políticas, do processo judicial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro a temas regulatórios internos, como o Pix e decisões do Judiciário brasileiro, citados pelo próprio governo americano. O desfecho depende tanto de cálculo econômico quanto de dinâmica política, planos que nem sempre avançam no mesmo ritmo.

Nesse contexto, cabe à imprensa econômica regional acompanhar não apenas o anúncio do dia, mas o desenho estrutural da disputa, sem antecipação e sem alarmismo. Ao empresário mineiro importa menos saber qual foi a manchete de quinta-feira (16) do que entender quais setores estão expostos, qual é o histórico de negociação entre os dois países e quais instrumentos, legais e diplomáticos, têm alcance real.

O tarifaço seguirá em movimento. A responsabilidade de quem informa é acompanhar esse movimento com rigor, e não apenas registrar seu último capítulo.

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