Editorial

2030 está mais perto

Agenda 2030 deixou de ser promessa de um futuro distante e se tornou cobrança urgente
2030 está mais perto
Foto: Freepik

Em 2015, 193 países assinaram um compromisso incomum: crescer sem destruir, prosperar sem excluir, avançar sem deixar ninguém para trás. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 não nasceram como utopia, nasceram como contrato. Um contrato que o mundo, passados dez anos, cumpriu de forma desigual, fragmentada e, em muitos casos, apenas no papel.

O Brasil não é exceção. Há avanços reais a registrar. A queda do desemprego para mínimas históricas, a expansão dos programas de transferência de renda, a recuperação de indicadores de saúde e educação básica, tudo isso conversa, ao menos em parte, com o espírito dos ODS. Mas convergir com uma meta em um indicador isolado não é o mesmo que incorporar uma agenda.
A Agenda 2030 é, em sua essência, indivisível: não se pode celebrar o ODS 8, trabalho decente e crescimento econômico, enquanto se negligencia o ODS 13, sobre ação climática, ou o ODS 10, sobre redução das desigualdades.

O Brasil é um país que desmatou, nos últimos anos, florestas que levaram séculos para se formar. Que concentra renda em proporções que envergonham qualquer comparação internacional. Que ainda priva milhões de pessoas de saneamento básico, uma das metas mais elementares de toda a agenda.

Tratar os ODS como pauta de relações públicas, boa para discursos em fóruns internacionais e relatórios institucionais, é uma forma sofisticada de esvaziá-los. A agenda só tem sentido se for traduzida em política pública concreta, em orçamento, em legislação e em cobrança democrática.

Faltam menos de quatro anos para 2030. O prazo, que em 2015 parecia generoso, revelou-se curto para a ambição do que foi prometido. Mas ainda é suficiente para que o Brasil decida, com honestidade, o que quer ser: um país que assina compromissos ou um país que os cumpre. Essa escolha não se faz em assembleias internacionais nem em documentos oficiais, ela se faz nas salas de ministério, nas votações do Congresso e nas ruas que cobram o que foi prometido. A sociedade civil, a imprensa e as instituições democráticas têm papel insubstituível nesse processo de vigilância. Ignorar os ODS é, no fundo, ignorar os brasileiros que mais dependem de um Estado que funcione. A história cobrará, mas quem mais tem a perder com a inércia somos nós mesmos.

Não se trata de catastrofismo, mas de realismo: metas sem prazo são intenções; metas com prazo vencido são fracassos. O Brasil ainda tem tempo de transformar intenção em legado, mas esse tempo se estreita a cada ano em que a urgência é reconhecida nos discursos e ignorada nas decisões. A Agenda 2030 não pede perfeição; pede comprometimento real, e é exatamente isso que ainda está em falta.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas