Investigações da PF revelam data para prender Moraes e orçamento para transportar golpistas

Militares próximos ao ex-presidente atuaram na coordenação financeira e operacional de atos antidemocráticos falaram sobre destinar R$ 100 mil para cobrir gastos de hotel e alimentação de manifestantes

8 de fevereiro de 2024 às 19h44

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Crédito: Adriano Machado/Reuters

São Paulo – O plano para reverter a derrota de Jair Bolsonaro (PL) na eleição, efetuar um golpe militar e prender autoridades foi discutido em mensagens e reuniões durante os meses de novembro e dezembro, segundo a Polícia Federal. Ainda segundo a PF, as investigações também indicam que o major Rafael Martins e o tenente-coronel Mauro Cid, falaram sobre destinar R$ 100 mil para cobrir gastos de hotel e alimentação de manifestantes.

As datas desses eventos relatados pelos investigadores desenham um roteiro do que seria o golpe. De acordo com os planos dos golpistas, a prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ocorreria no dia 18 de dezembro de 2022.

Veja os principais fatos anotados pela Polícia Federal

  • 05/07/2022 – Bolsonaro convoca reunião de ministros, ataca eleição e diz que iria “entrar em campo” com exército;
  • 30/10/2022 – Bolsonaro é derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial;
  • 11/11/2022 – Major Rafael Martins pede orientações a Mauro Cid, ajudante de ordens de Bolsonaro, sobre realização de protestos; Cid afirma que alvos seriam o Congresso e o STF;
  • 12/11/2022 – Militares das Forças Especiais fazem reunião em Brasília para tratar de plano golpista; Mauro Cid participa do encontro;
  • 19/11/2022 – Filipe Martins, assessor de Bolsonaro, e Amauri Feres, advogado, participam de reunião no Palácio da Alvorada para discutir a minuta do decreto que reverteria o resultado da eleição e prenderia autoridades;
  • 22/11/2022 – PL, partido presidido por Valdemar Costa Neto, apresenta pedido para contestar resultado do segundo turno;
  • 28/11/2022 – Nova reunião de militares das Forças Especiais, também em Brasília, para discutir tentativa de golpe; participaram assistentes de generais que ocupavam postos de alto escalão;
  • 07/12/2022 – Reunião no Palácio da Alvorada entre Bolsonaro, comandantes militares, Filipe Martins e Amauri Feres para discutir a minuta do golpe;
  • 09/12/2022 – General Estevam Theophilo, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres, se encontra com Jair Bolsonaro; segundo depoimento de Mauro Cid, ele teria aderido ao plano de golpe;
  • 14/12/2022 – Contrariado com resistência ao golpe, Braga Netto se refere ao comandante do Exército como “cagão”;
  • 15/12/2022 – Marcelo Câmara, assessor de Bolsonaro, discute com Mauro Cid itinerário de viagens de Alexandre de Moraes, alvo de prisão no decreto planejado pelos golpistas;
  • 18/12/2022Data em que Alexandre de Moraes seria preso, de acordo com planejamento obtido pela PF.
Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Polícia Federal descobre orçamento de R$ 100 mil para o transporte de golpistas do Rio a manifestações

Militares próximos ao ex-presidente atuaram na coordenação financeira e operacional de atos antidemocráticos após o resultado das eleições de 2022, também segundo a Polícia Federal. Em conversas obtidas pela PF, o major Rafael Martins e o tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro, falam sobre destinar R$ 100 mil para cobrir gastos de hotel e alimentação de manifestantes.

Segundo o órgão, Martins e Cid se reuniram com outros militares em Brasília em 12 de novembro de 2022 para “para tratar de assuntos relacionados a estratégia golpista”. Dois dias depois, os dois teriam trocado mensagens sobre a “necessidade de recursos financeiros”.

Cid pediu uma estimativa de gastos e perguntou se R$ 100 mil seriam suficientes para cobrir os custos de hotel, alimentação e material dos manifestantes. “Entorno [sic] disso”, respondeu Martins.

“Rafael Martins contatou Mauro Cid, solicitando recursos financeiros estimados no montante de R$ 100.000,00 [cem mil reais], para custos com hotel, alimentação e material. Em tal oportunidade, Mauro Cid aproveitou para orientá-lo a trazer pessoas do Rio”, afirma a Polícia Federal.

E segue: “Segundo a autoridade policial, esses elementos, em corroboração com outros, revelam indícios de que o major Rafael Martins de Oliveira atuou de forma direta no direcionamento dos manifestantes para os alvos de interesse dos investigados, além realizar a coordenação financeira e operacional para dar suporte aos atos antidemocráticos e arregimentar integrantes das Forças Especiais do Exército para atuar nas manifestações, que, em última análise, não se originavam da mobilização popular”.

No dia 15 de novembro, apoiadores de Bolsonaro realizaram atos antidemocráticos que pediam um golpe de Estado das Forças Armadas após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais. No dia das manifestações, mensagens obtidas pela PF mostram que Martins disse a Cid que estava “com as necessidades iniciais”. Ele encaminhou ao então ajudante de ordens de Bolsonaro um documento protegido com senha, intitulado “Copa 2022”.

Martins orientou Mauro Cid a apagar posteriormente as mensagens, “com o objetivo de suprimir as provas dos ilícitos praticados”, revela ainda a PF. “Aquele valor de 100 se encaixa nessa estimativa”, segue Martins. Cid, então, responde: “Preciso urgente”. O major segue: “ok. Incluso [sic] vou transferir o material em dinheiro. Além da locomoção”.

A Polícia Federal argumenta que o diálogo revela “fortes indícios” de envolvimento direto de Rafael Martins, “direcionando os manifestantes para os alvos de interesse dos investigados, como STF e Congresso Nacional, além de realizar a coordenação financeira e operacional para dar suporte aos atos antidemocráticos”.

A Polícia Federal também cita indícios de que empresários do agronegócio teriam financiado os atos golpistas. “No dia 16 de novembro, Mauro Cid enviou um áudio, possivelmente para o general Freire Gomes, pelo aplicativo Una, em que cita o financiamento das manifestações em Brasília, por empresários do agro”, diz o relatório. (Mônica Bergamo e Bruno Boghossian)

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