Negócios

[EDITORIAL] De volta ao passado?

Ouvir a matéria 0:00 / 0:00

São crescentes as incertezas com relação ao comportamento da economia global, seja no que toca ao desempenho, seja por conta do risco de rupturas que soam como ameaça e ao mesmo tempo retrocesso. Da Europa vem o mais recente exemplo da crescente instabilidade que, no caso do Velho Continente, tem como um de seus fortes componentes a retirada do Reino Unido do bloco, movimento que pode antecipar uma desagregação mais profunda. Na América do Norte a instabilidade se confunde ou é causada pelo comportamento do presidente dos Estados Unidos, fragilizando as alianças regionais – Canadá e México – e, pela importância do país, projetando-se mundo afora e potencializando conflitos numa espécie de regressão aos tempos da Guerra Fria, com a China ocupando o espaço que antes pertencera à União Soviética. Até a corrida espacial volta a ser instrumento de propaganda e de disputa, como se estivéssemos todos de volta aos anos 60 do século passado.

Um comportamento, no geral, tão insano quanto imprevisível, na perspectiva de que as diferenças se acentuam, a concentração da renda aumenta de um lado e a pobreza de outro enquanto os esforços de integração vão desaparecendo. A União Europeia presentemente discute a questão abertamente, no sentido que construir outros elementos que integrem e fortaleçam a economia da região, numa postura claramente de isolacionismo. Os europeus, por exemplo, querem construir empresas fortes, de dimensão e capacidade de atuação global, num processo em que parceiros de fora não serão bem-vindos. Ao mesmo tempo são propostas e discutidas medidas protecionistas, num quadro imaginário em que o bloco se bastaria.

São movimentos que parecem bem ensaiados, com o objetivo final de dividir o mundo entre Estados Unidos, Europa e China, cada um deles com suas respectivas áreas de influência, e sem que exista uma bula papal para validar este acerto como uma espécie de novo Tratado de Tordesilhas. As mudanças políticas, com inclinação à direita, parecem inspirar o isolamento, definindo claramente as áreas periféricas, mas ao mesmo tempo pondo de lado os conceitos de racionalidade que, no campo da produção e do comércio, seriam as garantias de resultados, de participação e de nivelamento.

Um horizonte nublado, cinza, no qual não parece existir espaço desejável para países como o Brasil, os antigos emergentes dos quais hoje tão pouco se fala. Enxergar o que se passa, com absoluto senso de realidade e pragmatismo, é o primeiro passo para que possamos nos situar. E nos defender na medida do possível.

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas