Acordo UE-Mercosul deve criar novos negócios para café mineiro
O acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, aprovado na sexta-feira (9), deve ter pouca influência para o mercado cafeicultor brasileiro e mineiro no curto prazo, mas a médio e longo prazos, a tendência é que sejam facilitados investimentos, fluxos de dinheiro, criação e ressignificação de empresas.
O principal motivo, segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, em inglês), Vinícius Estrela, para este cenário é que o “café verde”, como é chamado o café antes de passar pelo processo de torra, que é responsável por boa parte das exportações do setor, já é isento de tarifas, mas possui um valor agregado mais baixo do que o torrado e os mais trabalhados.
Além disso, o acordo prevê a retirada gradual das tarifas sobre grande parte dos produtos comercializados entre os blocos econômicos que, no caso dos cafés torrados, podem variar entre 8% e 15%. O processo pode demandar anos, permitindo que tanto as empresas do Mercosul como as da União Europeia façam a transição de forma mais planejada.
“Novos negócios surgirão para o café especial brasileiro a partir do acordo, facilitando investimento, fluxo de dinheiro e criação de empresas. É preciso olhar sobre todos os aspectos”, previu Estrela.
Posição também defendida pelo presidente do Sistema Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Antônio de Salvo, que celebrou o avanço entre os blocos, apesar da ressalva de que ainda faltam etapas para a implementação da área de livre-comércio.
“Todo acordo de livre comércio com a Europa é bom para o agro brasileiro. É um agro muito competitivo, sustentável economicamente, socialmente e ambientalmente e certamente vamos ter vantagens no que diz respeito a poder comercializar sem as barreiras impostas pela União Europeia”, comemorou.
O café é um dos principais produtos mineiros exportados para a União Europeia. No ano de 2025, foram quase 800 mil toneladas enviadas para os países do bloco, segundo dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG)
Vantagens além das tarifas
A “costura” de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul tem pontos mais importantes para o setor cafeicultor, afirmou Vinícius Estrela, que alega que a medida pode gerar receita em serviços e melhorar o acesso a determinados produtos.
O maquinário para a produção dos café, por exemplo, deve ter redução no custo. O que facilita a modernização do setor e que, no longo prazo, deve diminuir o custo de produção e reduzir os preços, inclusive no mercado interno.
“O produtor e a indústria brasileira vão conseguir ter acesso a maquinários que hoje compram com impostos mais altos. Equipamentos de torra, industriais ou mesmo alguns equipamentos para fazenda, processo de pós-colheita. A tendência é que alguns produtos vendidos no Brasil fiquem mais baratos no médio e longo prazo. Isso devolve para o produtor menos custo e mais competitividade”, afirmou Estrela.
Outra mudança mencionada como importante que deve decorrer devido ao acordo está maior facilidade para indicações geográficas, o que pode agregar valor a determinados produtos. Contudo, para isso, será necessário uma maior convergência regulatória entre o que europeus e sul-americanos consideram origem certificada. O diretor da BSCA alegou que a Europa é mais burocrática e normativa sobre o tema.
“Indicações geográficas em Minas Gerais passam a ser reconhecidas no mercado europeu, desde que haja uma convergência regulatória entre os mecanismos europeus e brasileiros. Assim, a gente tem potencial de agregação de valor do café. Na Europa, eles são mais burocráticos e a normativa europeia de indicação geográfica é um pouco mais dura do que a nossa. Isso vai permitir que a gente exporte e trabalhe produtor com mais valor agregado, mais qualidade origem certificada”, avaliou.
Um terceiro ponto destacado por Estrela é a possibilidade de empresas participarem de processos de compras públicas. Atualmente, para que uma prefeitura compre café, por exemplo, é necessário que a empresa que queira participar da licitação cumpra uma série de exigências, como sócio brasileiro e outras, o que deve passar a não ser obrigatório para pessoas nascidas em alguns dos países que compõem os dois blocos econômicos.
“Uma empresa brasileira vai poder participar de compras públicas na Itália, por exemplo. Abre-se uma janela para participação de empresas em compras públicas da União Europeia. Propriedade intelectual, patentes e novas tecnologias também passam a serem reconhecidas no mercado europeu”, celebra Estrela.
UE-Mercosul: mais de 25 anos de negociação
Após mais de 25 anos de negociações, já que as tratativas iniciaram em 1999, o acordo para a criação de uma área de livre comércio foi finalmente referendado. Os países-membros da União Europeia aprovaram o texto, que vai reduzir ou eliminar barreiras de importação e exportação, além de mudanças sobre questões de propriedade intelectual e de medidas sanitárias.
A assinatura está prevista para ser realizada no sábado (17), em Assunção, no Paraguai, mas para que passe a vigorar terá que passar pela Comissão Europeia e pelo Mercosul, o que deve ocorrer com certa velocidade.
Posteriormente, deve ir para o Parlamento Europeu, onde 720 representantes dos 27 Estados-membros devem aprovar o texto por maioria simples, ou seja, ser apoiado por 361 deputados europeus. Na América do Sul, esse processo ficará a cargo da legislação de cada um dos países-membros.
Apesar de temas comerciais não precisarem ser apreciados pelo Legislativo de cada um dos 27 países europeus, questões sobre regulação e ambientais devem ser votadas.
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