Agronegócio

Produzido com IA, café de Uberlândia eleva qualidade e rentabilidade do produtor

Desenvolvido por equipe universitária, Café Porandu eleva pontuação do cultivo e entrega melhor reprodutibilidade ao produtor
Produzido com IA, café de Uberlândia eleva qualidade e rentabilidade do produtor
Com o sucesso da pesquisa, Café Porandu passou a ser comercializado e já reúne protfólio com mais de 10 produtos | Foto: Reprodução Café Porandu

A cafeicultura brasileira recebeu um aliado tecnológico que propõe transformar a lógica do pós-colheita. Desenvolvido em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, o Café Porandu é fruto de um projeto multidisciplinar que aplica Inteligência Artificial (IA) para converter dados de campo em decisões mais precisas, proporcionando maior rentabilidade para o produtor.

Com uma equipe de mais de 50 pesquisadores, a iniciativa já demonstrou capacidade de elevar a pontuação de cafés especiais em até três pontos. Nos testes, todos os lotes avaliados alcançaram notas acima de 84 pontos, após reduzir incertezas no processo, aumentando a previsibilidade da qualidade.

À frente do projeto, o professor e pesquisador do Instituto de Biotecnologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Matheus Gomes, destaca que a proposta é usar a tecnologia aliada à coleta de dados para transformar o cultivo de café no País.

O processo, segundo ele, começa dentro da fazenda, quando são coletados dados experimentais de diferentes “rotas” possíveis para o café do produtor. O controle é realizado de diferentes formas, como via dispositivos IoT (objetos equipados com sensores) que medem em tempo real a temperatura dos tanques de fermentação/bombonas.

Com a ajuda da Inteligência Artificial e testes em diferentes condições, a equipe conseguiu encontrar o melhor método para cada lavoura de café. Gomes explica que os lotes são processados em diferentes condições e avaliados por q-graders (provadores certificados), que atribuem as notas sensoriais. Esses resultados, combinados aos dados coletados no campo, alimentam uma rede de informações (big data), que é processada pelos modelos de IA até apontar a rota de pós-colheita com maior chance de desempenho.

“Com esse histórico, o produtor passa a ter mais clareza sobre qual combinação de manejo tende a entregar a melhor qualidade e reprodutibilidade, repetindo, safra após safra, o perfil que deu certo”, explica o pesquisador.

Produto dessa iniciativa, o café Porandu já participou de mais de 100 eventos nacionais, regionais e internacionais, impactando cerca de 500 mil pessoas. Entre as participações de maior visibilidade, estão ações no G20, em Manaus (AM) com foco em apresentar a tecnologia por trás do produto, além do Web Summit Lisboa, em Portugal, em um espaço dedicado à degustação e à promoção de cafés brasileiros.

Arte sobre café de qualidade
Foto: Imagem gerada por IA

Com o sucesso da pesquisa, o Café Porandu passou a ser comercializado e já reúne um portfólio com mais de 10 produtos. A linha inclui drip coffee, pacotes de 1 quilo (kg) e 250 gramas, em versões em grão ou moído. A proposta é ampliar os pontos de contato com o público, conectando a jornada do café especial tecnológico e inspirando outros produtores.

“O Café Porandu é a essência do melhor café da safra e 100% dos recursos arrecadados retornam para a universidade de Uberlândia para reinvestirmos em novas ações do projeto”, destaca Gomes.

Além do café, iniciativa conecta produtores e amplia oportunidades

Além da qualidade para o produtor, o Café Porandu vem se firmando como um indutor de oportunidades fora do campo. O projeto conecta cafeicultores e fomenta oportunidades de negócio, como a possibilidade de convênios com outras instituições de pesquisa no mundo.

Segundo Gomes, a equipe, que reúne pesquisadores, alunos, professores, técnicos, interface de pesquisa, ensino e extensão, adota a tríade do ESG (Ambiental, Social e Governança) para uma atuação completa junto ao produtor. A iniciativa envolve, desde ajustes na marca, até melhorias na participação de colaboradores da fazenda durante o processo. “Construímos um arcabouço na cadeia do café e mexemos da semente à xícara”, destaca o pesquisador.

A adoção dessas práticas no pós-colheita já mostrou resultados diretos na geração de valor aos cafeicultores. Ao elevar padrão e consistência, Gomes explica que o País, além de ganhar destaque em premiações, também ampliou a receita nas exportações. “Só com a adição de cuidado no pós-colheita, é possível gerar mais de US$ 500 milhões adicionais na balança comercial”, afirma.

Além do Porandu, o projeto atua junto a 12 iniciativas, dentre pequenos, médios e grandes produtores. Um exemplo citado é a mineira Casa Bruxel, que após participar da pesquisa, já consegue reproduzir o mesmo sabor há três anos, após ciclos de notas totalmente imprevisíveis anteriormente. A empresa produz cafés especiais e também vinhos no Cerrado Mineiro, no município de Patos de Minas.

Para o futuro, a ideia é ampliar o número de atendimentos, mas a expansão depende de mais recursos. “Queremos ampliar a percepção de valor do café especial, especialmente no âmbito das instituições públicas. Ao valorizar esse produto, fortalecemos também a percepção da população sobre a qualidade de um café que é brasileiro”, finaliza Gomes.

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