Economia

Inadimplência atinge 836 mil empresas em Minas e dívidas ultrapassam R$ 18 bilhões

Em novembro de 2025, levantamento da Serasa Experian registrou 5,5 milhões de dívidas negativadas, com valor médio de R$ 21,8 mil
Inadimplência atinge 836 mil empresas em Minas e dívidas ultrapassam R$ 18 bilhões
No penúltimo mês de 2025, levantamento registrou 5,5 milhões de dívidas negativadas | Foto: Reprodução Adobe Stock / Kittiphan

Pressionadas pelos juros elevados e créditos mais restritivos, as empresas em Minas Gerais enfrentam um aumento expressivo na inadimplência. Em novembro de 2025, 836 mil CNPJs encerraram no vermelho, com dívidas totais que juntas somam R$ 18,2 bilhões, um avanço de 34% frente ao mesmo período do ano anterior.

Os dados constam no Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. No penúltimo mês do ano, o levantamento registrou 5,5 milhões de dívidas negativadas, com valor médio de R$ 21,8 mil. Em média, cada negócio acumula 6,6 dívidas, índice ligeiramente inferior frente a 2024, quando registrou 7,7 pendências.

A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, pontua que o resultado mostra um sinal claro de deterioração das condições financeiras das empresas. Ela explica que o expresivo crescimento do estoque de inadimplência leva o sistema financeiro a reavaliar risco, refletindo em crédito mais caro, exigência maior de garantias e menor apetite para operações de longo prazo.

“Esse ambiente afeta diretamente decisões de investimento. Projetos planejados para 2026, sobretudo aqueles que dependem de financiamento bancário, podem ser adiados ou redimensionados”, destaca.

Nesse contexto, a elevada taxa de juros, hoje a 15% ao ano, é um dos principais fatores que pressionam a categoria. Camila Abdelmalack explica que, em um ambiente de juros elevados, o capital de giro se torna mais caro, a rolagem das dívidas mais difícil e a capacidade de reorganização financeira das empresas fica limitada. “Em muitos casos, a inadimplência surge como consequência direta de um custo financeiro incompatível com margens já pressionadas, especialmente entre micro e pequenas empresas”, acrescenta.

À medida em que esse quadro se intensifica no Estado, a tendência é que o endividamento afete diretamente as cadeias produtivas. Na avaliação da economista, outros negócios podem ser impactados na medida em que atrasos de pagamento a fornecedores se intensifiquem, além de maiores possibilidades de renegociações forçadas e cancelamento de encomendas.

O impacto tende a ser ainda mais severo em setores que dependem mais do crédito. Se esse cenário persistir, a expectativa é que o efeito deva reduzir o ritmo da atividade, aumente a cautela nas relações comerciais e reforce um ambiente de crescimento mais fraco.

Em 2026, a expectativa é de crescimento do crédito em ritmo mais moderado do que o observado nos últimos dois anos, e, mesmo com a perspectiva de redução da taxa de juros, a inadimplência das empresas deve seguir em patamar elevado. “O ciclo de cortes pode ajudar a conter o agravamento do quadro, mas uma reversão mais clara dependerá de sinais consistentes de melhora da atividade e da transmissão efetiva da queda de juros ao crédito, em um ambiente ainda marcado por desaceleração”, avalia Camila Abdelmalack.

Endividamento compromete oferta e poder de negociação

Ao analisar o contexto macroeconômico, o economista e conselheiro de política econômica, Stefan D’Amato, corrobora que o avanço expressivo na inadimplência das empresas tende a produzir efeitos contracionistas nos negócios. “Firmas mais endividadas operam de forma defensiva, priorizando a desalavancagem em detrimento do investimento produtivo, o que enfraquece a formação de capital e limita a expansão da atividade econômica”, comenta.

Embora os dados não permitam afirmar repasses automáticos aos preços, o economista chama atenção para um ambiente de maior pressão nos custos. Nesse cenário, elevam-se os riscos dos negócios no Estado para uma eventual transmissão parcial para a cadeia de preços, especialmente em mercados com menor grau de concorrência.

Segundo D’Amato, o endividamento também compromete a dinâmica da oferta. Com a perda de acesso ao crédito, as empresas enfrentam desafios que podem levar a redução de estoques, ao adiamento de investimentos, além de uma menor capacidade de negociação com fornecedores.

“Em termos agregados, isso compromete a competitividade local, favorece processos de concentração de mercado e reduz a diversidade de produtos disponíveis”, argumenta.

Mantida a trajetória observada em 2025, o economista projeta que o início de 2026 tende a ser marcado por maior seletividade do crédito e persistência do estresse financeiro dos empreendedores, sobretudo enquanto a Selic permanecer em patamar elevado. “Esse cenário sugere um ambiente de negócios mais restritivo, especialmente para pequenos e médios empreendimentos, com implicações relevantes para o ritmo de crescimento do Estado”, finaliza D’Amato.

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