Consumo de combustível avança em Minas e registra o melhor resultado em 25 anos
O consumo de combustível em Minas Gerais encerrou 2025 com números recordes na série histórica, os maiores em 25 anos, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Ao todo, foram comercializados 17,9 milhões de metros cúbicos (m³) de produtos, um avanço de 3% na comparação com o consolidado de 2024.
Apesar da evolução nos números, o cenário mostra um contraste relevante no consumo de gasolina e etanol. Pela primeira vez em mais de duas décadas, a gasolina bateu 5 milhões de m³ em 2025, registrando alta de 10% na comparação com o ano anterior, enquanto o etanol enfrentou uma queda expressiva de 11,2% nas comercializações, totalizando 2,2 milhões de m³.
O maior avanço, no entanto, ficou com o querosene de aviação, com alta de 10,6% frente a 2024. Em 12 meses, foram vendidos 332.916 m³ do combustível, reflexo de uma maior demanda, que impulsionou os aeroportos mineiros.
Já o diesel segue como o combustível mais consumido no Estado em volume absoluto, representando quase metade do consumo total. Entre janeiro e dezembro, 8,7 milhões de m³ saíram das bombas para os motoristas, o que representa uma alta de 3,3% frente ao mesmo período do ano anterior.
De acordo com o economista e docente da Uni-BH, Fernando Sette Júnior, esse contraste entre gasolina e etanol é um sinal de substituição entre bens próximos, guiada por preços relativos. No mercado brasileiro, segundo ele, a opção entre os dois produtos é realizada no momento em que o etanol é considerado competitivo (quando custa até 70% da gasolina, em termos de rendimento).
“Uma queda de dois dígitos no etanol simultânea a um recorde de gasolina sugere que, ao longo de 2025, a relação de preços se deslocou de forma consistente contra o biocombustível. Isso indica não apenas um ajuste pontual, mas um realinhamento de incentivos econômicos que alterou o padrão agregado de consumo”, explica o especialista.
O impacto desses fatores, no entanto, é diferente no ponto de vista macroeconômico. Para o economista, o ganho de participação da gasolina fortalece a arrecadação tributária e reduz incerteza de oferta de curto prazo, mas o recuo do etanol pode afetar cadeias agroindustriais, investimentos em biocombustíveis e metas de descarbonização.
A partir dos dados levantados pela ANP, a avaliação é que a política de preços e/ou a dinâmica de custos agrícolas tiveram peso maior que preferências ambientais do consumidor. “É um caso claro em que o preço domina a intenção verde, revelando a importância de desenho regulatório se o objetivo for manter participação renovável”, ressalta.
Protagonismo do diesel impulsiona a produção; destaque em aviação indica avanço dos serviços
Com relação ao protagonismo do diesel, Sette Júnior explica que esse dado indica que espinha dorsal da economia estadual segue sendo logística e produtiva. Diferente do etanol e gasolina, amplamente usado pelo consumidor comum, o diesel é o insumo essencial do transporte de carga, da agroindústria, da mineração e de máquinas pesadas.
Além disso, a estabilidade da participação do diesel, mesmo com o avanço da gasolina, sugere que não houve substituição entre segmentos, mas expansão paralela de consumo produtivo e pessoal. “Sua dominância mostra que o crescimento econômico observado não é apenas consumo das famílias, mas também circulação de mercadorias e atividade produtiva”, observa o economista.
Na aviação, o crescimento de dois dígitos no consumo do combustível é encarado como um indicador de dinamismo no setor de serviços. Além do próprio setor, um avanço no segmento pode sinalizar fortalecimento aos hubs regionais, aeroportos, além de benefícios aos setores de hotelaria e cadeias de serviços associados.
Para Sette Júnior, o crescimento pode ser reflexo do aumento de mobilidade de renda média e alta, além da expansão de rotas e maior atividade empresarial. “Economicamente, isso costuma acompanhar fases de confiança, investimento e circulação de capital humano, fatores associados a produtividade”, pontua.
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