Vendas de combustíveis caem em Minas Gerais no 1º bimestre
As vendas de combustíveis pelas distribuidoras em Minas Gerais caíram 4,6% no primeiro bimestre de 2026 quando comparadas com o mesmo período do ano passado. A queda de 18,7% na comercialização do etanol, a maior dentre os combustíveis, influenciou o desempenho negativo no Estado que ainda não reflete os impactos do conflito no Oriente Médio. Os dados são da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
No total, foram comercializados 2,6 milhões de metros cúbicos (m³) de combustíveis nos primeiros dois meses do ano em Minas Gerais, sendo 31,3% (828 mil m³) de gasolina. De acordo com o levantamento da ANP, com exceção dela, que teve alta de 7,9%, todos os demais combustíveis venderam menos no bimestre.
Enquanto as vendas do etanol caíram 18,7%, o óleo diesel vendeu 7,3% a menos que no primeiro bimestre do ano passado e o gás liquefeito de petróleo (GLP) teve queda de 3,6% no mesmo intervalo.
Na avaliação do especialista em combustíveis, Vitor Sabag, o comportamento do consumo em Minas segue o padrão nacional. “A maior parte da frota é bicombustível no Brasil. Então, quando o preço de um sobe, as pessoas tendem a consumir o outro”, observa.
Em Minas, o consumidor migrou para a gasolina de forma mais intensa que no Brasil. “Esse movimento acontece em função dos preços do etanol. Estamos no período entressafra e é comum o etanol aumentar no início do ano”, avalia.
Sabag, assim como o economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Izak Silva, ressalta que estes dados ainda não trazem o impacto do conflito entre Estados Unidos (EUA) e Irã e refletem mesmo uma situação sazonal. “O conflito foi deflagrado no dia 28 de fevereiro quando o mercado já estava fechado, não impactando, dessa forma, em absolutamente nada os números”, diz o economista do BDMG.
Segundo Silva, a queda abrupta do etanol era esperada e motivada por um efeito sazonal. “Normalmente, o primeiro trimestre do ano depende das chuvas e do período de safra. Com menor oferta do produto, o preço encarece. Esse período se estende até o quarto mês do ano, quando os preços devem melhorar e consequentemente, as vendas”, diz.
De acordo com dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP), citados por Silva, o preço do etanol aumentou em 22 das 27 unidades federativas pesquisadas. “Isso corrobora com os resultados e faz o etanol menos competitivo do que a gasolina”, destaca.
A oferta menor do etanol e a consequente alta dos preços, ajuda a explicar em parte, o bom desempenho da gasolina. “Esse cenário somado à redução aplicada no preço da gasolina pela Petrobras na última semana de janeiro, deixou a gasolina mais competitiva frente ao biocombustível”, diz.
Já no caso do diesel, Silva explica que o combustível está muito associado ao transporte de cargas e a queda de 7,3% nas negociações, pode ser explicada por um fevereiro com dias úteis menores do que o ano passado. “Este ano o Carnaval foi em fevereiro, isso faz com que a comercialização seja menor”, comenta.
Tendência é de alta no preço da gasolina e aumento de vendas do etanol
Para os próximos meses, Silva ressalta que é necessária uma revisão nas expectativas de consumo e vendas no Estado diante da nova dinâmica internacional de preços, alterada em função do conflito no Oriente Médio.
Segundo o especialista, as projeções feitas até fevereiro perderam validade com o agravamento do cenário externo. “Tudo que nós vimos até o mês de fevereiro não vale mais para o restante do ano, enquanto o conflito persistir”, afirma.
Com o conflito, os contratos futuros de commodities como o açúcar elevaram seus preços e já impactam os produtos comercializados. Fato que pode refletir em alta também no preço da gasolina, mudando o padrão de consumo dos mineiros. “A tendência é de substituição. Menos comercialização de gasolina e mais de etanol, ainda que estejamos em período de entressafra, já que a gasolina perde competitividade”, destaca o economista.
Outro efeito relevante deve ser sentido no mercado de diesel. Diferentemente de uma eventual escassez física do combustível, a previsão é de queda na demanda motivada por um comportamento mais cauteloso de empresas e consumidores.
“Não se trata de falta de diesel, mas de um racionamento natural. Com o aumento de preços e a percepção de risco na oferta, houve uma tendência de racionalização do consumo em março que deve ser retratada no próximo mês pela ANP”, explica.
A expectativa, segundo o economista do BDMG, é que os próximos levantamentos já indiquem redução no consumo geral de combustíveis no Estado, especialmente no diesel. “O movimento reflete uma adaptação do mercado à instabilidade internacional e pode ter impactos indiretos sobre setores como transporte, logística e indústria em Minas Gerais”, finaliza.
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