Economia

Guerra no Oriente Médio pode agravar quadro negativo da siderurgia no Brasil

Conflito eleva custos de energia e logística, pressiona margens e demanda, intensificando o cenário negativo do setor de aço no País
Guerra no Oriente Médio pode agravar quadro negativo da siderurgia no Brasil
Setor siderúrgico registra queda na demanda interna, além da entrada de aço importado, principalmente da China | Foto: Reprodução Adobe Stock

O cenário negativo enfrentado pela siderurgia brasileira, marcado por importações elevadas e pelo fraco consumo interno, pode se intensificar com a guerra no Oriente Médio. O conflito, que já dura mais de um mês, afeta energia, logística e ciclo econômico, elevando custos, comprimindo margens e pressionando a demanda.

A guerra encarece fortemente o gás e o petróleo e gera risco de crise energética. Com isso, a indústria do aço, intensiva em energia, sofre um aumento de custo direto, conforme destaca o especialista da Valor Investimentos, Virgílio Lage.

O conflito também impacta a logística internacional ao fechar o Estreito de Ormuz, redirecionar navios, gerar atraso nas entregas e elevar o frete marítimo. Por consequência, ele pontua que o custo indireto das siderúrgicas com transporte cresce.

Diante da alta nos custos, as empresas tendem a subir o preço do aço. No entanto, o medo de uma recessão global derruba a demanda por metais, segundo Lage. Logo, há risco de perda de volume, enquanto a forte concorrência com o mercado externo continua.

O especialista salienta que, antes da guerra, o quadro da siderurgia no Brasil já era ruim. Dados do Instituto Aço Brasil mostram que a produção do setor recuou 1,6% e as vendas internas diminuíram 0,4%. Por outro lado, a entrada de aço laminado do exterior no País cresceu 20,5%, alcançando o maior patamar em 15 anos.

Os números da entidade para este ano também são pessimistas. As perspectivas indicam retração de 2,2% no volume produzido e 1,7% nas comercializações no mercado interno, ao passo que as importações de laminados devem subir 10%.

Para Lage, a importação é o maior problema da indústria do aço nacional, que vem perdendo competitividade há anos. Ele afirma que o excesso de capacidade de produção global de aço, principalmente da China, pressiona os preços internos, comprime as margens e faz as siderúrgicas perderem participação de mercado.

“A siderurgia brasileira já vinha fraca e a guerra do Oriente Médio não ajuda. Na verdade, o conflito aumenta o custo e ao mesmo tempo mantém a demanda pressionada. Então, o resultado acaba sendo compressão de margem e risco de piores resultados”, reitera.

“Se a guerra continuar ou escalar, as margens seguem pressionadas, os resultados fracos continuam e há maior volatilidade nas ações do setor”, avalia. “Em um cenário mais negativo, a energia dispara mais, há recessão global e forte queda na demanda pelo aço justamente por conta disso e há um possível aumento na ociosidade das usinas”, conclui.

Impacto do conflito na economia brasileira

O setor siderúrgico no Brasil segue com incertezas do lado econômico, destaca o analista de investimentos da plataforma AGF, Pedro Galdi. Sobretudo por influência da guerra nos preços de combustíveis e fertilizantes, a inflação voltou a ser uma preocupação e não há mais expectativas para uma queda expressiva na taxa de juros (Selic), o que se reflete na economia e, consequentemente, na demanda por produtos que utilizam aço.

Conforme ele, a entrada representativa de aço do exterior tende a se reduzir diante das recentes mudanças de alíquota de importação para alguns tipos de aço, com foco na China. Entretanto, ainda não é possível calcular o que pode entrar de aço chinês via outros países.

Caso o conflito no Oriente Médio se estenda e isto se configure em uma alta ainda maior no preço do petróleo e seus derivados, na avaliação de Galdi, a situação negativa da siderurgia brasileira pode piorar. Para o analista, o impacto será global se acontecer, mas é preciso aguardar mais notícias para mensurar quanto tempo a guerra vai durar.

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