Extremos climáticos: cenário deixou de ser ameaça e já realidade em Minas Gerais

Secas prolongadas e ondas de calor estão se tornando mais frequentes em todo o País
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Extremos climáticos: cenário deixou de ser ameaça e já realidade em Minas Gerais
O Super El Niño contribuiu para elevar as temperaturas e prolongar períodos de estiagem em diversas regiões do País, causando impactos econômicos e na saúde da população | Foto: Reprodução Magnific

Os extremos climáticos deixaram de ser uma ameaça futura. Segundo o Relatório Luz 2025 da Agenda 2030, que monitora os indicadores do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima, secas prolongadas e ondas de calor estão se tornando mais frequentes no Brasil. Em Minas Gerais, esse cenário favorece a proliferação de cianobactérias em lagos, lagoas e represas, aumentando riscos para a saúde, comprometendo atividades turísticas e elevando os desafios para a gestão dos recursos hídricos.

De acordo com o estudo, das cinco metas do ODS 13 avaliadas em 2025, duas estavam insuficientes, uma ficou estagnada e outras duas não se aplicavam. Ainda segundo o documento, Minas Gerais teve cinco cidades na lista dos 10 municípios com mais alertas de desastres registrados em 2024, dado mais atual.

Belo Horizonte ocupou o segundo lugar geral, com 44 alertas no ano, ficando atrás apenas de Manaus (AM). Juiz de Fora, na Zona da Mata, e Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), empataram no quinto lugar, com 32 alertas. Também constam na lista outras duas cidades da RMBH, Betim está na oitava posição com 27 alertas e Ribeirão das Neves registrou 25 alertas, revela o Relatório Luz 2025.

O cenário é consequência dos extremos climáticos intensificados nos últimos anos, entre eles os efeitos do Super El Niño, que contribuiu para elevar as temperaturas e prolongar períodos de estiagem em diversas regiões do País.

Cenário ideal para a floração de cianobactérias, microrganismos, conhecidos popularmente como algas azuis, se proliferam em ambientes com água mais quente, parada e rica em nutrientes — condições típicas do período de estiagem, pode levar à produção de toxinas prejudiciais à saúde humana e animal.

Segundo o biólogo Tiago Finkler Ferreira, PhD em recursos hídricos e saneamento ambiental, o problema tende a se intensificar justamente quando o fluxo de visitantes aumenta. “O período de seca favorece a proliferação de cianobactérias, que podem liberar toxinas formando uma nata verde no espelho d’água. Mas podem ser nocivas mesmo quando a água aparentemente está limpa, oferecendo riscos à saúde humana e animal”, explica.

Sinais

O especialista ressalta que, apesar de invisível na maioria das vezes, o risco pode ser identificado por alguns sinais, como coloração esverdeada intensa na água, presença de espuma, odor desagradável ou ocorrência de peixes mortos. No entanto, a ausência desses indícios não garante segurança, o que reforça a necessidade de monitoramento constante.

Para Tiago Ferreira, além dos impactos ambientais e sanitários, o avanço das florações também pode afetar a economia mineira. Lagos, lagoas e represas são importantes destinos para turismo de natureza, pesca esportiva e lazer em diferentes regiões do Estado. A perda da qualidade da água pode reduzir o fluxo de visitantes, aumentar os custos de tratamento para abastecimento e exigir maiores investimentos públicos em monitoramento e prevenção.

O professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcelo Libânio observa que a estiagem prolongada contribui para o agravamento do problema.

“Temperaturas mais elevadas e períodos prolongados de seca aumentam a frequência dessas florações e esta é uma questão ambiental e de saúde pública. E a cultura de prevenção ajuda a evitar doenças e facilita a mitigação do problema. Tais florações podem acontecer em corpos hídricos sem lançamento de esgotos e, mais frequentemente, em lagoas e lagos que recebem dejetos ou nutrientes”, afirma.

Membro da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano destaca que o problema pode ser grave em humanos e vão desde a irritação na pele e nos olhos, náuseas, vômitos e, em casos mais graves, danos ao fígado e ao sistema neurológico. O risco é ainda maior em atividades recreativas, como banhos principalmente em lagos e lagoas.

O infectologista reforça a preocupação de exposição nos grupos mais vulneráveis. “Crianças, idosos e pessoas com doenças preexistentes estão mais suscetíveis. O contato direto com a água contaminada, ou mesmo a ingestão acidental, pode desencadear quadros clínicos importantes tais como problemas de pele, gástricos, neurológicos e até a morte”, alerta.

Monitoramento é essencial

Segundo contextualiza a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais (SES-MG), as cianobactérias são microrganismos que possuem apenas uma célula e ocorrem naturalmente nos ambientes aquáticos e sua presença elevada revela uma questão estrutural que envolve saneamento, gestão hídrica, mudanças climáticas e educação ambiental. O risco é silencioso, mas crescente e exige atenção tanto do poder público quanto da sociedade.

A SES explica que no Brasil, o acompanhamento da qualidade da água integra as ações do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua), desenvolvido no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em Minas Gerais, o acompanhamento contínuo é feito pela vigilância em saúde por meio do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde. Este sistema gerencia dados de potabilidade da água e cadastra sistemas de abastecimento e poços SES-MG, especialmente nos sistemas de abastecimento público.

Esse monitoramento é executado principalmente pelos prestadores de serviço de abastecimento em frequência trimestral, podendo chegar a semanal conforme a densidade de cianobactérias e a possível presença de toxinas, já que são condições comuns no Estado.

Os resultados mais recentes indicam a ocorrência de uma curva de crescimento da densidade de cianobactérias nas florações mais recentes, quando se levam em consideração as variações sazonais, especialmente em represas, lagos e lagoas, mais susceptíveis a receber despejos de efluentes sanitários sem tratamento.

A análise das cianotoxinas que podem ser geradas pelas cianobactérias é um procedimento de alta complexidade e de custo elevado, o que reforça a importância da rede laboratorial para monitoramento sistemático e de ações de gerenciamento e prevenção de riscos. Portanto, o tema é de grande relevância para a saúde pública.

Sobre o autor

Élida Ramirez

Rádio Itatiaia

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