Renegociação cresce, mas inadimplência segue em alta mesmo com mercado de trabalho aquecido
O aumento da renda e a força do mercado de trabalho não têm sido suficientes para tirar os brasileiros do ciclo de endividamento e inadimplência. Em Minas Gerais, o número de acordos fechados no Serasa Limpa Nome cresceu 40% entre maio e julho deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025, superando 1,1 milhão de renegociações. Ainda assim, o Estado continua registrando avanço no número de consumidores inadimplentes.
No Brasil, 83,9 milhões de pessoas encerraram julho com dívidas em atraso, alta de 0,23% sobre o mês anterior, de acordo com dados da Serasa. São mais de 348,3 milhões de dívidas em aberto, que somam R$ 586,4 bilhões. Em Belo Horizonte, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e analisada pelo Núcleo de Pesquisa e Inteligência da Fecomércio-MG, mostra que o endividamento das famílias permanece próximo de 90%.
Os dados, aparentemente contraditórios, ajudam a explicar o principal desafio atual: renegociar uma dívida não significa necessariamente que o consumidor tenha recuperado a capacidade financeira para pagar as novas parcelas.
Segundo a Serasa, o avanço das renegociações já produz algum efeito sobre a velocidade de crescimento da inadimplência. Entre maio e julho de 2025, o aumento médio mensal da inadimplência em Minas Gerais foi de 1,2%. No mesmo período deste ano, esse ritmo caiu para 0,6%. Ou seja, os programas de negociação estão conseguindo conter parte do avanço, mas ainda não foram capazes de provocar uma redução consistente do estoque de consumidores negativados.
No período de maio a julho, mais de 570 mil consumidores mineiros foram responsáveis pelos acordos fechados na plataforma, em um cenário marcado pelo novo Desenrola Brasil e pela ampliação da rede de parceiros com condições para a regularização dos débitos.
Para o professor de Finanças do Ibmec-BH, Marcos Camargos, o cenário representa um paradoxo entre a melhora dos indicadores de emprego e renda e a permanência de níveis elevados de endividamento. Ele explica que a renegociação pode resolver o problema imediato, mas não necessariamente as causas que levaram o consumidor à inadimplência. “Por mais que você consiga renegociar com uma taxa menor ou abater o valor que você devia, muitas vezes o valor renegociado continua não comportando no orçamento”, afirma.
O problema, segundo ele, é agravado pelos juros elevados, especialmente nas modalidades mais utilizadas pelos consumidores, como o cartão de crédito. Quando a nova parcela ocupa uma fatia significativa da renda, qualquer despesa inesperada pode levar novamente ao atraso.
Essa combinação entre juros elevados e orçamento apertado é apontada pelos especialistas como um dos principais obstáculos à redução estrutural da inadimplência.
A especialista em mercado financeiro e fundadora da escola Financial Experts, Luciana Ballesteros, destaca que a Selic elevada por um período prolongado aumenta o custo das operações de crédito. O efeito é ainda mais intenso nas modalidades com taxas mais altas, como cartão de crédito, cheque especial e crédito rotativo. “Os juros são exorbitantes. Então, é quase uma dívida impagável”, afirma.
A economista da Fecomércio-MG Gabriela Martins também chama atenção para o efeito dos juros sobre quem já possui compromissos financeiros. Quando uma dívida entra em atraso, os encargos fazem o saldo crescer, criando o conhecido efeito de “bola de neve”.
Nesse cenário, uma renegociação com desconto pode reduzir o estoque da dívida, mas não necessariamente eliminar o problema se a nova prestação continuar incompatível com o orçamento.
Gabriela Martins comenta ainda que o custo de vida continua pressionando o orçamento das famílias, mesmo com a inflação aparentemente controlada. “Por mais que a inflação esteja dentro das metas estabelecidas pelo Banco Central, a gente tem alguns grupos de produtos que têm uma elevação mais acentuada e que também gera um impacto maior para a vida dos consumidores”, explica.
Ela cita como exemplos o aumento dos aluguéis e de determinados alimentos. Na prática, uma parcela maior da renda fica comprometida com despesas essenciais, reduzindo o espaço disponível para o pagamento de dívidas contraídas anteriormente. Esse ponto ajuda a explicar por que o mercado de trabalho aquecido não necessariamente se converte em queda da inadimplência.
Para Luciana Ballesteros, o emprego garante renda, mas não significa, automaticamente, aumento do poder de compra. A especialista lembra que uma parcela relevante dos trabalhadores atua de forma autônoma ou como microempreendedor individual e destaca que, nesses casos, não há necessariamente reajustes de renda que acompanhem a inflação. “Sem carteira assinada, entregadores ou profissionais autônomos, não possuem nenhum tipo de proteção inflacionária no salário. Então, se elas continuarem ganhando o mesmo tanto, de fato, elas estão perdendo dinheiro a cada mês”, avalia.
Crédito virou extensão da renda
Outro ponto ressaltado pelos especialistas é o papel do crédito no orçamento das famílias. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Fecomércio-MG aponta que o cartão de crédito aparece em 97% dos casos entre os principais compromissos financeiros assumidos pelas famílias de Belo Horizonte.
Para a economista da instituição, o dado exige atenção. “O cartão de crédito deixou de ser utilizado apenas para compras pontuais e passou a funcionar, em muitos casos, como complemento da renda mensal. Isso aumenta o risco de descontrole financeiro, principalmente em um ambiente de juros elevados”, afirma.
Marcos Camargos identifica o mesmo problema ao analisar a composição do orçamento doméstico. Segundo ele, despesas com alimentação, moradia, saúde e financiamentos deixam pouca margem para imprevistos. “Sem uma reserva financeira, uma despesa extraordinária pode obrigar o consumidor a contratar um novo crédito”, pontua.
Aplicativo pode ajudar no controle das finanças
Em Minas Gerais, o desenvolvedor Lucas Porto criou o Pierre, um aplicativo voltado a ajudar os usuários a organizar a vida financeira, acompanhar objetivos e tomar decisões. A ferramenta funciona como um assistente de inteligência financeira baseado em múltiplos agentes de inteligência artificial e utiliza o Open Finance para analisar gastos e sugerir ações aos usuários. O aplicativo não realiza transações.

Adquirido pela paulista CloudWalk no ano passado, um mês após o lançamento, o Pierre, em pouco mais de um ano, já gerencia e analisa R$ 10,26 bilhões em patrimônio de 1,5 milhão de usuários. Entre as funcionalidades estão alertas sobre gastos excessivos, relatórios de despesas e sugestões de mudanças de hábitos.
Foi a partir de uma necessidade pessoal que Lucas Porto criou o aplicativo. “Busquei na internet algo que me ajudasse num momento difícil da minha vida financeira. Como não encontrei, decidi fazer aquilo que eu procurava”, disse.
A proposta do aplicativo partiu, então, de uma “dor” identificada no mercado financeiro digital: na avaliação de Porto, muitos sites e aplicativos apresentam dados em excesso, mas oferecem pouco auxílio aos usuários. “Em vez de painéis cheios de gráficos e tabelas, o Pierre tenta organizar a vida financeira por meio de alertas, sugestões, e conversas”, explicou Porto.
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