Livrarias se multiplicam em Minas e apostam em convivência para enfrentar o digital

Setor registra aumento na abertura de empresas e aposta em eventos, convivência e atendimento personalizado para atrair leitores
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Livrarias se multiplicam em Minas e apostam em convivência para enfrentar o digital
Foto: Divulgação Livraria Amadeu

O mercado de pequenas e médias livrarias vem crescendo em Minas Gerais ao longo dos últimos anos. Entre os fatores que ajudam a explicar esse movimento está o aumento da demanda por experiências de convivência e cultura. No entanto, a concorrência com as grandes plataformas digitais continua sendo um grande desafio a ser superado pelas empresas que atuam nesse segmento.

De acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o número de novas Empresas de Pequeno Porte (EPPs), Microempresas (MEs) e Microempreendedores Individuais (MEIs) atuando nesse segmento no Estado saltou de 651, em 2016, para 1.329 no ano passado. Até o início deste mês, já foram abertas 873 empresas desse tipo em Minas Gerais.

O diretor-presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Alexandre Martins Fontes, acredita que as pessoas já estão exaustas do mundo virtual e têm reconhecido a importância de manter um estilo de vida cultural com muita leitura. Para ele, a livraria física possibilita uma experiência de encontro, que é exatamente o que tem sido demandado ultimamente.

O dirigente ressalta que esse movimento de valorização de espaços onde as pessoas podem se sentir mais vivas, com uma experiência que vá além do que é oferecido pelo mundo on-line, está acontecendo em todo o planeta. “A livraria é um ponto de encontro. Ela é mais do que um simples espaço físico com paredes e livros na estante, é um lugar onde as pessoas se encontram”, declara.

Além disso, um levantamento realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com a Nielsen BookData, mostra que o Brasil ganhou cerca de 3 milhões de novos leitores em 2025. No entanto, a diretora da Câmara Mineira do Livro (CML), Leida Reis, relata que esse aumento não tem gerado um crescimento significativo nas vendas das livrarias de Minas Gerais.

Ela avalia que o mercado está mais estagnado, principalmente pelo fato de a maioria das pessoas optar pela comodidade da compra pela internet, em muitos casos com a oferta de descontos e frete grátis. A dirigente também é sócia-proprietária da Casa Literíssima Editora e Livraria e relata que o cenário é mais favorável para as editoras.

A empresária destaca que sua livraria está praticamente sendo sustentada pelo movimento na editora. “Se eu dependesse só de venda no varejo eu não conseguiria manter a livraria. Ela opera quase como um suporte à editora, pois para a edição o mercado está positivo, mas para venda ainda não”, diz.

Leve recuperação das livrarias

Mulher lendo um livro.
Foto: Divulgação Casa Literíssima

Já o sócio-proprietário da Livraria Amadeu, Lourenço Carrato Coco, avalia que o setor vem passando por uma recuperação no período pós-pandemia de Covid-19. No caso de seu estabelecimento, ele credita esse avanço às ações de divulgação orgânica realizadas por alguns clientes nas redes sociais, principalmente no YouTube.

Para o empresário, o movimento atual já é semelhante ao observado antes da pandemia, com mais pessoas passando a conhecer o estabelecimento. “Com essa ajuda dos youtubers, nós tivemos uma ligeira sustentação para manter o movimento depois da pandemia”, afirma.

O sócio da Livraria Jenipapo, Frederico Pinho, relata que o estabelecimento tem apresentado uma leve melhora nas vendas ao longo dos últimos dois anos. Entre os motivos que podem explicar esse movimento, ele destaca a criação de novos contatos e relações com editoras e distribuidores, além da atração de novos clientes.

No entanto, o empresário pondera que o mercado é sempre desafiador, principalmente devido à concorrência com o e-commerce, que tende a ser desleal. Isso faz com que as livrarias sejam obrigadas a oferecer algo mais, como uma experiência presencial e analógica.

Apesar dos desafios, Pinho ressalta a relevância desse setor para a sociedade. Ele descreve a leitura como um tipo de exercício que exige um momento dedicado a si próprio. Isso ganha ainda mais importância se considerarmos o avanço da inteligência artificial (IA), que tem levado as pessoas a terceirizar tudo, até mesmo a concentração.

“O livro exige esse tipo de relação e uma temporalidade diferentes, pois quando nos colocamos na posição de leitor, nós temos que nos desconectar e isso é uma coisa muito necessária para o nosso tempo”, explica.

Concorrência desleal do digital

Martins pontua que quase todas as grandes e médias livrarias brasileiras já atuam no canal de vendas digital. A questão, segundo ele, está na estratégia adotada por grandes marketplaces, como a Amazon, no mercado editorial. Ele ressalta que a multinacional usa apenas os livros para atrair os clientes e faz isso oferecendo descontos que são impossíveis de replicar pelas livrarias físicas.

O especialista explica que esse cenário demonstra um conflito de duas realidades distintas. Por um lado, as pessoas estão cada vez mais cansadas do mundo digital e sabem da importância dos espaços de convivência, mas, por outro, elas vivem em um País que permite que a Amazon prejudique o mercado interno.

Segundo ele, países como Argentina, França e Alemanha, entre outros, já criaram regulamentações para inibir este tipo de prática por parte das grandes plataformas digitais. “O Brasil ainda não tem esse tipo de lei e isso é um problema concreto e real para o dia a dia das livrarias”, afirma.

Apesar de alguns resultados positivos ao longo dos últimos anos, os dados do DataSebrae apontam para uma desaceleração no número de aberturas de pequenos negócios ao longo de 2026 em Minas Gerais. Em janeiro, foram abertas 151 pequenas empresas de comércio varejista de livros, jornais, revistas e papelaria. No último mês, foram abertas 100 unidades. Já nos seis primeiros dias de agosto, foram lançadas 25 novas operações.

Além da concorrência com o canal digital, outro fator que dificulta o aumento das vendas nas livrarias, segundo Leida Reis, é o consumo crescente de serviços de streaming e redes sociais. Ela pontua que isso também está ocorrendo em diferentes partes do mundo, como a Europa.

“As pessoas estão buscando mais entretenimento. Não é só a compra nas plataformas digitais que está prejudicando as livrarias”, afirma.

Para a diretora da CML, a solução desse problema está no aumento do incentivo à leitura, principalmente nas escolas e também nas famílias. Isso também envolve a necessidade de mais compras governamentais de livros para as bibliotecas escolares, por exemplo.

Aposta na experiência presencial

Leitores na Livraria Jenipapo em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Foto: Divulgação Livraria Jenipapo

Leida Reis avalia que uma das principais formas de superar esse desafio da concorrência com o digital é por meio da realização de eventos culturais nas livrarias. Ela afirma que, além dos lançamentos de livros, sua livraria realiza saraus, oficinas e encontros de clubes do livro. “As livrarias precisam trazer o público para dentro não só para comprar um livro, mas também para ter uma experiência e uma vivência cultural”, diz.

Para conseguir superar a concorrência com as plataformas digitais, Alexandre Martins também aponta para a experiência de comunidade e de encontro, pois isso é algo que elas não são capazes de entregar. Ele explica que isso fez com que muitos estabelecimentos passassem de um simples lugar para adquirir livros e se transformassem em um espaço de convivência.

De acordo com o dirigente da ANL, a capacidade de oferecer esse tipo de serviço fez com que essas operações não desaparecessem por completo. “Essa é uma estratégia importante para a sobrevivência das livrarias. Isso é o que está acontecendo e é o que explica o surgimento de novas lojas”, diz.

Além disso, ele pontua que as livrarias, em muitos casos, valorizam o bairro onde estão instaladas, aumentando a demanda por imóveis na região e melhorando a qualidade de vida da população local. Ele ainda cita a frase do autor inglês Neil Gaiman: “Uma cidade sem uma livraria pode até se considerar uma cidade, mas ela sabe que não está enganando ninguém”.

Público jovem é o grande destaque

O especialista destaca o grande número de jovens que estão frequentando esse tipo de estabelecimento, muitos acompanhados de pessoas mais velhas. Já o sócio proprietário da Jenipapo relata que a maioria das participantes dos clubes de leitura e outros eventos realizados no estabelecimento são mulheres, com uma faixa etária bem diversa.

Na visão de Carrato, esse movimento dos jovens é a “luz no fim do túnel” para o mercado. Ele também destaca a forte presença do público feminino nas livrarias. Para o empresário, esse movimento pode estar atrelado a um incentivo dos pais para a prática da leitura ainda no período da pandemia.

“Eu notei que depois da pandemia muitas mães estavam trazendo suas filhas. Agora, essas jovens já sabem o caminho e estão vindo sozinhas”, relata.

Ainda sobre o perfil do público, Leida Reis descreve que a Literíssima conta com uma demanda majoritariamente formada por adultos, na faixa etária dos 40 anos ou mais. Porém, ela destaca que a editora realizará, em breve, o primeiro lançamento do recém-criado selo editorial voltado para o público jovem, com o objetivo de ampliar a atuação nesse segmento.

“Nós estamos investindo mais nesse nicho porque acreditamos que ele tem condições de crescer, pois, apesar de alguns índices negativos, temos uma parcela de jovens que ainda prefere o livro físico”, acrescenta.

De acordo com o sócio da Livraria Amadeu, entre os segmentos com público leitor mais fiel estão filosofia, livros esotéricos, arte, romance, gênero policial, ficção científica e terror. Quanto à questão envolvendo os modelos de livro físico e digital, Carrato avalia que há espaço para ambos. Ele lembra que o físico continua sendo o mais consumido, principalmente entre as pessoas mais velhas.

Vantagens de atuar no mercado de livrarias

Livraria Amadeu em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Foto: Divulgação Livraria Amadeu

Entre as principais vantagens de atuar nesse segmento, o empresário destaca o fato de poder trabalhar com algo de que gosta. Além disso, ele ressalta que o dono de uma livraria atua como um divulgador da cultura principalmente para as gerações mais novas. “Essa é uma missão que nós temos”, completa.

Para quem pretende entrar nesse mercado, Carrato aconselha focar em livros usados ou raros e evitar os novos devido à grande concorrência com o digital. Ele também menciona a importância da tradição nesse mercado e avalia que esse é um fator importante para a manutenção de seu estabelecimento, fundado por seu pai em 1948 e considerado uma das livrarias mais antigas do Estado.

“O meu pai criou uma tradição em que as pessoas conhecem a loja e passam de pai para filho. Essa tradição nos dá um apoio enorme, pois, sem ela eu não sei se uma livraria de usados iria suportar”, diz.

O empresário ainda menciona o desafio envolvendo o aluguel do espaço, que consome uma grande fatia do lucro. Por isso, ele aconselha buscar um imóvel próprio, além de adquirir um bom acervo de livros e apostar em propaganda para crescer neste tipo de negócio.

Já Pinho acredita que o coração do negócio não está apenas nos livros, mas principalmente nos livreiros e demais profissionais. Ele afirma que a Livraria Jenipapo busca oferecer melhores condições de trabalho, seguindo na contramão de um modelo que só visa ao lucro. Um exemplo disso foi a adoção da escala com cinco dias de trabalho e dois de descanso por semana, a chamada “escala 5×2”.

Segundo Pinho, a ideia é garantir esse capital, que considera o mais relevante para o negócio. “Muitas vezes as pessoas procuram a livraria porque confiam no livreiro e querem uma boa indicação que não seja de algoritmo”, completa.

No entanto, ele ressalta que colocar tudo isso em prática e seguir sobrevivendo no mercado é um grande desafio. Portanto, torna-se fundamental cativar os leitores e conscientizá-los a respeito da importância desses estabelecimentos para a cidade. “Nós tentamos mostrar que essa experiência da livraria vale a pena e é positiva para o cenário cultural de Belo Horizonte”, diz.

Leida Reis relata a expansão de muitas livrarias, principalmente em Belo Horizonte, nos últimos dois anos. A especialista ainda avalia que, apesar das dificuldades, o ambiente atual é de uma maior conscientização a respeito da importância da prática da leitura e dos malefícios que o consumo excessivo de redes sociais pode causar às pessoas.

“Apesar de reconhecer que não é um negócio fácil ou até mesmo lucrativo, eu não sou pessimista”, pondera.

Já o diretor-presidente da ANL acredita que a crescente demanda por livrarias é uma tendência que veio para ficar, já que os seres humanos valorizam a convivência e tudo mais que essas unidades físicas oferecem. Ele relata que, apesar de estarem cada vez mais inseridas no mundo virtual, as pessoas estão mais conscientes da necessidade de se afastar um pouco desse ambiente.

Sobre o autor

Leonardo Leão

Repórter do Diário do Comércio desde 2022. Graduado em Jornalismo pela Estácio.

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