Cartões de criptomoedas avançam sem cobrança de IOF sob novas regras do Banco Central

Avanço dos cartões de criptomoedas no Brasil e as discussões sobre a regulamentação e tributação de IOF
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Cartões de criptomoedas avançam sem cobrança de IOF sob novas regras do Banco Central
Foto: Adriano Machado/Reuters

Os cartões de criptomoedas têm avançado no Brasil, impulsionados pela praticidade e pelo uso de stablecoins (criptoativos com paridade com moedas), além de permitirem evitar a incidência de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em pagamentos internacionais.

O crescimento do uso ocorre, porém, em meio às novas regras do Banco Central. Especialistas alertam para os riscos de o consumidor utilizar empresas que não atendam às exigências do órgão regulador e para a possibilidade de o governo passar a tributar essas operações no futuro.

Segundo dados da Receita Federal, o mercado de criptoativos movimentou R$ 505,5 bilhões em 2025. As stablecoins, criptomoedas pareadas com alguma moeda fiduciária (dólar e real) USDT, USDC e BRZ movimentaram mais de R$ 360 bilhões no mesmo ano.

A maior circulação de criptoativos fez crescer o número de cartões que permitem esse tipo de pagamento. Segundo dados da Binance Research, braço de análise e pesquisa de mercado da Binance, a modalidade ultrapassou a marca de US$ 747 milhões (R$ 3,9 bi) em movimentações em maio de 2026. No ano, o meio de pagamento acumulou crescimento de 48,6%.

Os cartões cripto funcionam de duas maneiras. Uma delas é por meio de cartões de débito ou pré-pagos, em que o usuário compra criptoativos e os mantém em uma conta vinculada ao cartão. À medida que o cartão é utilizado, o valor da compra é debitado automaticamente desse saldo.

Também existem cartões com funcionamento semelhante ao crédito. O usuário mantém seus ativos em uma reserva que serve como referência de valor. Ao final do mês, o cliente pode pagar a fatura com dinheiro ou usar suas criptomoedas para quitar o débito.

O meio de pagamento permite transformar criptoativos, muitas vezes vistos apenas como reserva de valor ou investimento, em recursos para despesas cotidianas. Também pode ser usado para compras em sites internacionais ou para manter parte do patrimônio em dólar.

Para Israel Buzaym, gerente da Kast no Brasil, o principal perfil de uso dos cartões é de pessoas que já têm patrimônio em criptomoedas e querem utilizá-lo no dia a dia sem precisar fazer resgates manuais.

A maior parte dos cartões cripto tem lastro em stablecoins. Segundo Antônia Souza, diretora de Moedas Digitais da Visa para América Latina e Caribe, “a escolha está diretamente relacionada à estabilidade, já que os ativos têm comportamento similar ao das moedas fiduciárias tradicionais”.

Segundo Eduardo Arnoni, vice-presidente sênior de soluções para clientes da Mastercard, esse modelo permite que o estabelecimento aceite o pagamento por maquininhas ou pelo comércio eletrônico e receba o valor em moeda local.

“Isso possibilita que o consumidor utilize suas criptomoedas sem que o comerciante precise lidar com a conversão.”

No Brasil, cartões como os da Binance, Kast, Onda Finance e OKX permitem usar criptoativos em compras no exterior e no Brasil. Na Kast, o pagamento é feito com o saldo em USDC, stablecoin em dólar, e funciona de maneira similar a de um cartão de débito.

O cartão da OKX é pré-pago e permite ao usuário carregar o saldo com USDG, USDC ou USDT.

Na Onda Finance, a conversão para dólar ocorre na carga ou recarga do cartão, que pode ser feita com criptoativos como USDC, USDT e Bitcoin ou com moeda fiduciária.

Já o Binance Card converte em moeda corrente as criptomoedas escolhidas pelo usuário, como Bitcoin, Ether e stablecoins, no momento da compra ou do saque.

Os produtos estão sujeitos a custos que variam conforme a empresa. Nas companhias consultadas pela Folha, as principais cobranças são taxas de conversão, que variam de 0,9% a 2,9%, e spread cambial.

O uso de criptoativos para pagamentos coloca os cartões no centro das discussões regulatórias e tributárias que envolvem o setor. Desde fevereiro de 2026, o Banco Central passou a regulamentar as prestadoras de serviços de ativos virtuais, com exigências de capital mínimo, segregação patrimonial e supervisão das empresas.

A nova regulamentação enquadrou operações com ativos virtuais referenciados em moedas fiduciárias, como as stablecoins, no mercado de câmbio, o que alimentou proposta de cobrança de taxa de 3,5% de IOF sobre o ativo. Hoje, não há essa tributação.

Para Guilherme Sacamone, CEO da OKX no Brasil, as novas regras elevam o padrão do mercado e podem atrair investidores, mas ele é contrário à incidência de IOF por considerar que dólares digitais são classificados como ativos virtuais, e não como moeda estrangeira.

Além da discussão tributária, a regulamentação muda as condições para as empresas que oferecem esses serviços. Para Carlos Akira Sato, cofundador da Syscapital e especialista em mercados regulados e tokenização de ativos, as novas regras trazem mais segurança ao consumidor ao estabelecer exigências.

O mercado, contudo, está em fase de adaptação. As autorizações para funcionamento ainda não foram concedidas, e Sato recomenda que o consumidor acompanhe a situação da empresa com a qual mantém vínculo.

“A partir de novembro, que é a data-limite, o Banco Central efetivamente começará a fiscalizar o mercado de maneira mais rigorosa. O consumidor precisa ficar atento para não ser prejudicado por uma empresa que esteja operando de maneira irregular.”

Como funcionam os cartões cripto

  • O usuário mantém criptoativos em uma conta vinculada ao cartão

    • O saldo pode ser formado por stablecoins, Bitcoin e outros criptoativos.
  • Ao fazer uma compra, o valor é debitado do saldo ou lançado na fatura

    • Nos cartões de débito ou pré-pagos, o valor é descontado do saldo disponível. Nos modelos semelhantes ao crédito, a compra pode ser lançada na fatura para pagamento posterior.
  • O comerciante recebe moeda tradicional

    • Mesmo quando o consumidor usa criptoativos, a transação é liquidada em moeda corrente, como real, dólar ou outra moeda local.

Modelos oferecidos

    • Similar a um cartão de débito
    • Saldo em USDC, stablecoin em dólar
    • Compra debitada diretamente do saldo
  • OKX | MASTERCARD

    • Cartão pré-pago
    • Usuário carrega com USDG, USDC ou USDT
    • Saldo fica em dólares digitais e é debitado
  • ONDA FINANCE | VISA

    • Cartão pré-pago
    • Carga e recarga podem ser feitas com USDC, USDT, Bitcoin ou moeda fiduciária
  • BINANCE CARD | MASTERCARD

    • Cartão de débito
    • Usuário pode escolher ativos como Bitcoin, Ether e stablecoins
    • Cripto é convertida em moeda corrente no momento da compra ou do saque

Conteúdo distribuído por Folhapress

Matheus dos Santos
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