Recuperação judicial das Casas Bahia expõe crise do varejo e mudança no consumo
Fundada em 1952 por Samuel Klein, a rede Casas Bahia, uma das maiores varejistas do País, com presença em praticamente todas as regiões brasileiras, protocolou, no domingo (16), um pedido de recuperação judicial junto à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Justiça de São Paulo. No documento, a empresa declarou uma dívida total de R$ 17,3 bilhões.
O pedido abrange dez empresas da holding, incluindo a controladora das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com, a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias das áreas de logística e tecnologia.
Segundo o grupo, o plano prevê a demissão de cerca de 3 mil colaboradores, de um total de 30,1 mil funcionários, além do fechamento de quase 300 lojas. Atualmente, a Casas Bahia conta com mais de 700 lojas físicas em operação no País, enquanto o Ponto Frio soma mais de 65 unidades.
Esse império do varejo, que faz parte, inclusive, da cultura nacional pela identificação, vem tentando se adaptar às mudanças que o segmento vem sofrendo nos últimos anos. Modelo de gestão mais adaptativa, impactos macroeconômicos e mudanças nos hábitos do consumidor podem ajudar a explicar como as Casas Bahia chegaram a esse ponto de buscar um mecanismo jurídico para reorganizar-se.
“No caso das Casas Bahia, é importante lembrar que a recuperação judicial é, em sua essência, um instrumento de reestruturação, cujo objetivo é viabilizar a superação de uma situação de crise econômico-financeira e preservar a atividade empresarial. A avaliação sobre os resultados desse processo dependerá, entre outros fatores, das medidas que serão apresentadas pela companhia e de sua capacidade de execução ao longo da reestruturação”, explica a advogada do Fonseca Brasil Serrão Advogados, especialista em recupeçaão judicial (RJ), Bruna Sales.
Efeitos amplos
Uma unanimidade entre os especialistas consultados pelo Diário do Comércio foi que a recuperação judicial das Casas Bahia tem mais de um fator, mas há entendimento de que o cenário geral da economia tem seu papel de influência, porém a análise precisa ser feita com cautela.
Segundo o economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação Ipead), Paulo Casaca, não só as Casas Bahia, mas todo o varejo brasileiro sofre com uma taxa de juros elevada, que gera uma “corrosão” no caixa das empresas.
“Operar com uma taxa de juros tão alta por tanto tempo afeta a operação. É impossível não afetar. E as Casas Bahia citam isso na recuperação judicial que enviaram: a dificuldade de administrar o fluxo de caixa perante esse ambiente de taxa de juros altíssima, porque esse setor foi calcado em um ambiente de crediário. Então eles usam concessão de crédito para fazer o movimento de fluxo de caixa, para fazer os crediários, para fazer os movimentos de controle de estoque”, avalia Casaca.
A mentora em liderança para mulheres e CEO da Anima Impacto Consultoria, Alessandra Freitas, entende que o contexto econômico faz parte dos fatores que podem impactar uma empresa. Todavia, jogar todo o custo do insucesso apenas neste fator geral é reduzir o problema real das Casas Bahia e do varejo brasileiro.
“Os fatores macroeconômicos têm um peso importante, mas eles não explicam tudo. Uma empresa não controla os juros, mas controla o quanto está exposta a eles e o quanto consegue se adaptar a esse cenário”, comenta Alessandra Freitas.
Já o empresário, especialista em CRM, automação comercial e inteligência artificial aplicada a vendas, sócio do Grupo HRZ, João Vinas, acredita numa junção de gestão equivocada e macroeconomia “tóxica” para o negócio e para o setor como um todo.
“A causa principal é macroeconômica em primeiro lugar, com uma decisão de gestão que amplificou o impacto. Atribuo aproximadamente 50% ao macro, 35% à estrutura de capital e 15% à mudança no perfil de consumo. A prova está no próprio balanço. A operação não quebrou: a receita cresceu 1,6%, a margem bruta subiu quase 3 pontos percentuais e a empresa gerou R$ 798 milhões de caixa livre no trimestre. Uma empresa que amplia margem e gera caixa não tem crise de demanda. Tem crise de custo de capital. A Casas Bahia opera no azul e sangra na linha financeira”, ressalta Vinas.
Queda de consumo e crédito
O sócio fundador do escritório Poliszezuk Advogados, Marcos Poliszezuk, entende que a crise está concentrada tanto em problemas de gestão e estrutura de capital da companhia quanto no modelo de varejo baseado em crediário.
“No âmbito da estrutura de capital, a empresa acumulou passivos de R$ 17,3 bilhões, com patrimônio líquido negativo, e a renegociação de 2024 foi insuficiente para reequilibrar a estrutura financeira. No plano operacional, a empresa enfrentou despesas crescentes com comissões a parceiros digitais, redução da eficiência operacional e necessidade de fechamento de 298 lojas. Contudo, há também uma dimensão estrutural do modelo de varejo baseado em crediário. Esse modelo depende de spread entre o custo de captação e a taxa cobrada do consumidor, sendo altamente sensível a variações na taxa Selic e na inadimplência. Quando o crédito se contrai e o consumo enfraquece, isso afeta não apenas a Casas Bahia, mas todo o segmento de varejo financiável”, comenta.
Vinas joga luz em outra questão quando diz que o varejo de bens duráveis é o setor mais exposto a juros do Brasil, o que pode ser explicado com três dados: o endividamento das famílias atingiu 82,0% em julho de 2026, o maior patamar da série histórica da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), contra 78,5% um ano antes; o comprometimento da renda com dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7%; e o Brasil tem a segunda maior taxa real de juros do mundo, 9,3%.
A própria companhia cita no balanço o consumo das famílias pressionado e a disputa crescente pelo orçamento doméstico, inclusive das apostas on-line. Quando 30% da renda já está comprometida, geladeira e sofá saem da fila. É o primeiro corte do orçamento doméstico, e é exatamente o core da Casas Bahia”, aponta Vinas.
Mudança de comportamento
“O varejo não está acabando. O modelo de varejo é que está mudando”, analisa, Alessandra Freitas, que destaca outra realidade para o mercado varejista nacional.
Falta de adaptação às novas demandas do consumidor, concorrência contra players mais atentos e que se adaptaram ao contexto tributário-econômico do Brasil também podem entrar na “conta” da queda das Casas Bahia, apesar do tamanho e força de marca que ainda possui.
“Quando o mercado muda, o consumidor muda e o modelo de negócio continua muito tempo baseado em uma lógica anterior, a empresa começa a perder capacidade de resposta. E aí uma decisão que poderia ter sido estratégica passa a ser uma decisão de sobrevivência”, afirma Alessandra.
“Shein e AliExpress ampliaram sua base de usuários ativos no Brasil no segundo trimestre de 2026, enquanto Magalu, Casas Bahia e Americanas recuaram. Só que aqui está o ponto que quase ninguém percebe: o consumidor da Casas Bahia não migrou para o digital. Ele continua precisando de crédito para comprar uma geladeira, e a Shopee não financia geladeira em 12 vezes sem cartão. O que quebrou não foi o vínculo com o cliente, foi a capacidade de financiar esse cliente”, explica Vinas.
Outras empresas em recuperação
De acordo com o Monitor RGF-Bizdoc, levantamento econômico periódico voltado ao acompanhamento e à análise do cenário de recuperações judiciais e da saúde financeira das empresas no Brasil, Minas Gerais estava, até junho de 2026, com 674 empresas em recuperação judicial, ficando atrás de São Paulo (2.248), Rio Grande do Sul (762) e Paraná (684).
A empresa de viação Saritur, fundada em 1977, com destinos para quase todas as regiões de Minas e com linhas urbanas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), está com R$ 960 milhões em dívidas e pediu recuperação judicial recentemente. Outra marca famosa que usou a Justiça mineira para entrar com o pedido de RJ foi a Brinquedos Estrela. A empresa protocolou pedido de recuperação judicial que tramita na comarca de Três Pontas, no Sul de Minas, com dívidas superiores a R$ 109 milhões.
Ainda segundo o Monitor RGF-Bizdoc, marcas de renome como Americanas, Oi, Gol, Light, Bombril, Unigel, Coteminas, Supermercados Dia, 123 Milhas e a SouthRock (dona da marca Subway) também estão tentando se reerguer.
Tendência
Para o varejo, o cenário tende a exigir maior disciplina financeira, eficiência operacional e atenção à geração de caixa, especialmente enquanto o custo do crédito permanecer elevado, segundo a advogada do Fonseca Brasil Serrão Advogados, Bruna Sales.
“Eu vejo a tendência do varejo da seguinte forma: não é o fim das grandes empresas ou das lojas físicas, mas uma seleção cada vez maior. Vão ganhar espaço as empresas que conseguirem ser mais ágeis, entender melhor o consumidor, operar de forma mais eficiente e mudar antes de serem obrigadas a mudar”, diz Alessandra Freitas.
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