Alho importado fica mais barato que o produzido em Minas e acende alerta no campo
Responsável por produzir cerca de 50% do alho nacional, Minas Gerais vem sendo fortemente prejudicada pela importação do produto mais barato da China e da Argentina. Enquanto o alho estrangeiro chega ao País em torno de R$ 11 por quilo, os custos de produção em Minas Gerais variam entre R$ 14 e R$ 15 por quilo, causando prejuízos. Entidades do setor questionam as políticas do governo em relação à falta de proteção à produção nacional e ao favorecimento de países estrangeiros.
A crise no campo tem afetado também as cidades. No Estado, São Gotardo, Ibiá e Rio Paranaíba decretaram situação de emergência econômica enfrentada pelo setor agropecuário, que inclui os prejuízos na produção do alho. Nas redes sociais, a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) destacou que a crise do alho deixou de ser apenas um alerta e se tornou oficial.
“São Gotardo e Ibiá reconheceram a situação de emergência econômica enfrentada pelo setor agropecuário. No alho, custos elevados, endividamento, margens cada vez menores e o avanço das importações pressionam os preços e dificultam a comercialização da produção nacional. A Anapa vem alertando e cobrando providências diante desse cenário. Mais de 70 ofícios já foram encaminhados aos órgãos competentes, denunciando as dificuldades enfrentadas pelos produtores e pedindo medidas concretas. Os decretos reforçam oficialmente a gravidade de uma crise que o campo já sente há muito tempo”, explica.
Conforme o presidente da Associação Mineira de Produtores de Alho (Amipa), Flávio Márcio Ferreira da Silva, a situação tem se agravado no último ano e meio. Entre os pontos questionados está a falta de aplicação do antidumping contra as importações da Argentina.

“Já foram protocolados pedidos junto ao governo federal e ao Departamento de Defesa Comercial (Decom) para tomarem uma providência em relação ao antidumping que, apesar de comprovado por estudos, não foi aplicado na Argentina”.
Conforme Silva, as importações vindas do país vizinho, via Mercosul, subiram de 6 milhões de caixas de 10 quilos para 10 milhões de caixas no período de novembro até o momento. “Os exportadores argentinos praticam dumping, subfaturam notas fiscais para sonegar impostos e enviam produtos fora das especificações de qualidade exigidas no Brasil”, explica.
No caso do alho chinês, o setor questiona o governo federal brasileiro que estabeleceu um acordo de preços flutuantes com quatro empresas chinesas. O acordo, que iniciou com o preço de R$ 16,90, atualmente está em R$ 15, acompanhando as quedas do mercado e deixando de proteger os produtores nacionais. “A China interfere no mercado brasileiro por meio de preços baixos, e não pelo volume de exportação”, explica.
Outra ação é o combate a liminares judiciais. O setor contesta decisões judiciais que concedem liminares para desobrigar importadores do recolhimento dos direitos de antidumping já aplicados ao alho chinês. A Anapa, segundo Silva, já apresentou denúncia ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra a concessão dessas liminares.
“A cultura do alho depende muito da parte da defesa comercial. E a defesa comercial não tem jogado do nosso lado”.
Ainda segundo Silva, nos moldes atuais, é impossível concorrer com as importações. “O “custo Brasil” é muito elevado e compromete a concorrência. Os produtores convivem com encargos trabalhistas, carga tributária, tarifas de energia elétrica e de combustível muito mais elevados do que os praticados nos países que exportam alho para cá”.
A consequência dos preços baixos reflete na produção, que tende a ser menor. Na safra atual, a área plantada de alho no Estado é de aproximadamente 8,5 mil hectares, menor que os 9,5 mil hectares da safra anterior. A produtividade média estimada é de 15 mil quilos por hectare.

“Além da redução de área, os produtores enfrentam ainda problemas climáticos, como temperaturas elevadas e chuvas fora de época no meio do ano, que reduziram a produtividade”, disse Silva.
A tendência, caso o cenário não mude, é de novas quedas na produção. “Se o governo federal e o Departamento de Defesa Comercial (Decom) não implementarem as medidas de proteção contra a importação, a tendência é que a produção de alho desapareça no Brasil. Nós vamos ficar 100% dependentes do alho importado”.
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