Contas públicas serão decisivas para mercados após eleição, avalia XP
A trajetória das contas públicas deverá ser um dos principais fatores para definir o comportamento da economia e dos ativos brasileiros após a eleição presidencial. Na avaliação do sócio e head de Alocação da XP, Rodrigo Sgavioli, o mercado financeiro já passou a incorporar nos preços uma expectativa de condução fiscal mais construtiva, mas ainda existe um longo caminho até que essa perspectiva se confirme.
Segundo ele, o cenário econômico dos próximos anos dependerá não apenas do resultado das urnas, mas principalmente da capacidade do próximo governo de apresentar um plano para as contas públicas e transformá-lo em medidas efetivas, com aprovação no Congresso.
Sgavioli explica que os ativos brasileiros vinham carregando um prêmio de risco elevado diante da percepção de deterioração da situação fiscal. Esse movimento aparece tanto na renda fixa quanto na bolsa.
No caso dos juros, as taxas elevadas refletem, ao mesmo tempo, uma oportunidade, mas uma percepção de risco maior associada ao País. “Você olha na renda fixa, por exemplo, as taxas tiveram que ser negociadas a patamares muito elevados, o que parece uma oportunidade, mas porque embute um risco muito grande”, explica.
Na renda variável, por sua vez, o desempenho não vinha sendo sustentado de forma contínua por fundamentos macroeconômicos, segundo o especialista. A bolsa teve momentos de valorização, mas com forte influência do fluxo de investidores estrangeiros.
“É inegável que os ativos financeiros representam uma perspectiva econômica e eles vinham olhando muito para a dinâmica das contas públicas”, afirma.
De acordo com Sgavioli, depois do primeiro turno houve uma mudança na percepção do mercado em relação à possibilidade de um ajuste fiscal mais consistente. Dentro de um espectro que vai da ausência de medidas de correção das contas a um ajuste considerado satisfatório, dessa forma, os preços passaram a refletir uma probabilidade maior de uma trajetória fiscal mais equilibrada. “Essa mudança de expectativa, com maior probabilidade de um cenário fiscal mais construtivo e equilibrado para o Brasil, fizeram com que os preços dos ativos descomprimissem aquele prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros”.
Entretanto, o especialista pondera que esse movimento representa apenas uma primeira etapa. Para que essa melhora seja consolidada, será necessário, segundo ele, superar algumas etapas. “Agora a gente precisa cruzar algumas pontes. A primeira está relacionada à definição do próximo presidente. Depois, será preciso conhecer qual é o plano em relação às contas públicas e o quão exequível será junto ao Congresso”, avalia.
A relação com o Congresso será particularmente importante. Uma proposta apresentada pelo Executivo, observa Sgavioli, pode sofrer alterações durante a tramitação ou sequer ser aprovada na forma originalmente concebida. “Tem um longo caminho até que esses prêmios de risco, de fato, descomprimam de uma forma mais completa”, afirma.
Na avaliação do especialista, um dos elementos centrais para a reação dos mercados será a recuperação da credibilidade da política fiscal. Ele avalia que o atual arcabouço fiscal sofreu alterações ao longo de sua implementação, o que, em sua visão, reduziu a confiança dos agentes econômicos na capacidade de controle das contas públicas.
Nesse contexto, a sinalização de um próximo governo comprometido com a contenção do crescimento das despesas obrigatórias poderia contribuir para melhorar a percepção dos investidores.
Sgavioli ressalta, porém, que não considera que um eventual processo de ajuste precise significar o abandono das políticas sociais. Para ele, o desafio está em compatibilizar a expansão dessas despesas com a capacidade de arrecadação e crescimento da economia.
“Gasto social é extremamente importante, mas ele deve crescer na mesma velocidade que acompanhe o crescimento da receita e do orçamento”, afirma.
Crescimento pode abrir espaço para políticas sociais
Para o especialista, a melhora fiscal não deve ser analisada apenas pela ótica de corte de despesas. O crescimento econômico também teria papel importante para ampliar a capacidade do Estado de financiar políticas públicas.
A lógica, segundo ele, seria elevar a produtividade e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), criando condições para que a arrecadação acompanhe a expansão das despesas.
“Queremos nos tornar um País mais produtivo, queremos ter mais PIB, queremos ser uma economia mais pujante, forte? Queremos. Pois isso vai abrir espaço, inclusive, para mais gasto social”, afirma.
Mercado não trabalha com certeza
Apesar das expectativas construídas em torno da eleição, Sgavioli ressalta que os investidores não trabalham com um cenário econômico totalmente definido. A estratégia de alocação, segundo ele, considera aquilo que é avaliado como o cenário mais provável, mas precisa levar em conta a possibilidade de mudanças ao longo do caminho.
Isso ocorre porque tanto os preços dos ativos quanto as variáveis macroeconômicas podem mudar. Uma perspectiva econômica diferente pode alterar a avaliação sobre determinado investimento, fazendo com que um ativo considerado caro em um momento passe a ser visto de outra maneira posteriormente. “O mundo do investimento não é determinístico”, afirma.
Por isso, a diversificação continua sendo, na avaliação do especialista, uma ferramenta importante para lidar com a incerteza. O nível de risco assumido deve considerar o perfil do investidor, sua tolerância a oscilações e o horizonte necessário para alcançar seus objetivos financeiros.
Para Sgavioli, assumir mais risco pode aumentar as possibilidades de retorno, mas também amplia a exposição às oscilações. Já uma estratégia mais conservadora pode exigir um período maior para que o patrimônio alcance determinado objetivo.
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