Participação feminina avança no agronegócio, mas desigualdades persistem
A presença feminina no agronegócio brasileiro vive um momento de crescimento e de valorização, mas, ainda é necessário ações para uma maior igualdade no Brasil e também no mundo. Em 2026, o Dia Internacional da Mulher carrega um simbolismo mais que especial para o campo. Este ano foi oficialmente declarado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. A campanha global visa reconhecer as contribuições indispensáveis, porém frequentemente negligenciadas, por isso, a ação defende acelerar a igualdade de gênero nos sistemas agroalimentares.
Conforme a FAO, o objetivo da ação é conscientizar o mundo sobre o papel fundamental das mulheres nos sistemas agroalimentares, dar visibilidade aos desafios estruturais enfrentados, promover políticas públicas transformadoras, mobilizar investimentos estratégicos e fortalecer alianças para reduzir as desigualdades de gênero no setor. Na América Latina e no Caribe, as mulheres representam 36% da força de trabalho nos sistemas agroalimentares, com participação especial, 71%, em atividades como processamento e comercialização.
No entanto, ainda há muitas desigualdades estruturais que limitam a autonomia econômica e a produtividade, como menor acesso à posse da terra, a serviços financeiros e tecnológicos e enfrentam uma sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.
A gestora da Gerência da Mulher, do Jovem e de Inovação do Sistema Faemg Senar, Silvana Novais, ressalta que a ação da FAO é muito relevante para a valorização da mulher do campo, onde a participação feminina é robusta, mas desigual na distribuição. Para ela, além de buscar pela igualdade de gênero nos sistemas agroalimentares, também é fundamental que as mulheres sejam empoderadas e que se enxerguem como essenciais.
“Temos o desafio de fazer com que a mulher se enxergue como proprietária. Muitas vezes ela está ali, trabalhando ao lado do marido, mas não se sente produtora. O Ano Internacional servirá para dar essa visibilidade e agir. Eles querem diminuir essa desigualdade”.
Mulheres avançam na representatividade
Em Minas Gerais, os movimentos para dar visibilidade, de valorização e pertencimento têm avançado e conquistado resultados importantes com mulheres ocupando cada vez mais cargos em empresas, cooperativas e em sindicatos. Além disso, elas têm mostrado a importância e desenvolvido oportunidades de trabalho e de crescimento profissional dentro das propriedades rurais.
“O Ano Internacional da Mulher Agricultora vem dar visibilidade e chamar a atenção para a criação de políticas públicas. É preciso transformar, mobilizar e fazer com que as mulheres estejam em melhores condições, desenvolvidas, capacitadas para que elas possam ocupar melhor esse lugar. É nisso que temos trabalhado na Gerência da Mulher”, explica Silvana Novais.
Conforme Silvana, a gerência, ao longo do ano, realiza diversos encontros, palestras, capacitações voltadas para as mulheres do agro e os resultados são positivos e crescentes. “Nossos números estão subiram muito. Os encontros de mulheres saltaram de 17 em 2022 para 80 em 2025, com meta de superar em 2026”.
Com os estímulos, a representatividade sindical também avançou. Em três anos, o número de mulheres nas diretorias de sindicatos rurais de Minas Gerais subiu de 341 para 431. Atualmente, existem 54 grupos de mulheres estruturados nos sindicatos mineiros.
“Nosso trabalho foca a capacitação técnica e a quebra de paradigmas. A estratégia inclui encontros virtuais bimestrais sobre liderança e a interiorização de palestras que ensinam a agregar valor ao que já existe na propriedade. Trabalhamos para que elas não precisem ir para a cidade buscar renda. Ela pode torrar o próprio café, produzir o doce de leite ou o queijo com excelência e vender ali mesmo, com marca própria”, destaca Silvana.
Cooperativas
O presidente do Sistema Ocemg, Ronaldo Scucato, explica que as mulheres são parte importante do agro e o avanço dessa representatividade tem relação direta com a sucessão no campo, a inovação e com a capacidade de manter as famílias produzindo e gerando renda.
“Nas cooperativas, essa presença ganha um caminho mais estruturado para virar participação e liderança. Em Minas, elas representam três em cada dez cooperados e mais da metade dos funcionários do ramo. Isso é relevante também do ponto de vista de gestão, porque há evidências de que organizações com mais diversidade na liderança tendem a ter desempenho melhor. O Sistema Ocemg valoriza muito esse contexto, tanto que das 10 gerências da entidade, 5 são lideradas por mulheres, e temos inúmeras iniciativas de formação e capacitação para ampliar o número de mulheres na liderança de cooperativas em Minas”.
A quebra de paradigmas na Expocacer
No Cerrado Mineiro, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) vive um marco na trajetória com a cafeicultora Mariana Velloso Heitor, sendo a primeira mulher a assumir a presidência do Conselho de Administração da instituição. A ligação de Mariana com a cafeicultura vem da família e da tradição de produzir café na região do Cerrado Mineiro. Atualmente a presidente do Conselho da Expocacer participa da gestão da Fazenda Reserva Heitor, localizada em Patos de Minas.

Ocupando espaço na direção da cooperativa e da Fazenda, Mariana destaca que o crescimento da participação feminina no agronegócio é um movimento muito positivo e que vem se consolidando nos últimos anos. Para ela, a atuação feminina traz diferenciais importantes, como um olhar muito atento e cuidadoso para a gestão, organização, sustentabilidade e qualidade. Além disso, muitas têm contribuído para fortalecer práticas de inovação, diversificação e responsabilidade socioambiental dentro das propriedades.
“Na cafeicultura, especificamente, vemos cada vez mais mulheres assumindo papéis estratégicos nas propriedades, na gestão das fazendas, nos processos de qualidade, comercialização e também na liderança de organizações do setor”.
Por outro lado, ainda existem desafios. “O principal deles é a quebra de paradigmas históricos em um setor que tradicionalmente foi conduzido majoritariamente por homens. Embora esse cenário esteja mudando, ainda é necessário ampliar oportunidades, promover capacitação, fortalecer redes de apoio e incentivar a presença feminina em espaços de decisão”.
Como presidente do Conselho, Mariana pretende apoiar e fortalecer iniciativas que valorizem e ampliem a participação feminina na cadeia do café, incentivando a capacitação, o compartilhamento de experiências e a presença das mulheres em espaços de liderança dentro da cooperativa e no setor.
“Na Expocacer temos o Programa Elas no Café, que há mais de 10 anos cumpre o papel de proporcionar capacitação, dar visibilidade ao trabalho desenvolvido por elas e reconhecer a importância e mérito de cada uma delas na cafeicultura. Acredito que com a realização de iniciativas que fomentem a educação, capacitação e exemplos positivos, esse movimento continuará crescendo e trazendo grandes contribuições e resultados expressivos e duradouros para o futuro da cafeicultura”.
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