Crédito nas mãos das mulheres muda a dinâmica da agricultura familiar em Minas Gerais
Em assentamentos rurais, pequenas propriedades e até fazendas maiores de Minas Gerais, cada vez mais mulheres têm assumido a liderança de projetos produtivos no campo. O direcionamento do microcrédito tem alterado a dinâmica da agricultura familiar. Linhas específicas para produtoras rurais, como o Fomento Mulher, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Pronaf Mulher, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Quintais Produtivos, do Banco do Nordeste, colocam o recurso diretamente nas mãos das mulheres — e isso muda tudo.
Com acesso ao crédito, elas passam a estruturar agroindústrias, ampliar produções e gerar renda para suas famílias e para o entorno onde vivem.
Segundo dados do último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2017, 14% das propriedades rurais em Minas Gerais são geridas por mulheres, o que equivale a 86.743 estabelecimentos agropecuários.
No Estado, mais de 2,1 mil mulheres do campo já receberam recursos do Fomento Mulher, um montante que soma mais de R$ 10,6 milhões. O objetivo da modalidade de crédito é viabilizar projetos produtivos sob a responsabilidade da agricultora familiar em assentamentos de reforma agrária criados ou reconhecidos pelo Incra, desde que ela atenda aos requisitos do programa.
É o caso da produtora rural Maria das Dores Moreira, a Dora, de 46 anos. Depois de passar quase dez anos acampada à beira da estrada à espera da regularização da terra, ela finalmente começou a estruturar a própria produção. Hoje, Dora vive com a família no assentamento Maria da Penha, em Mathias Lobato, município com pouco mais de 3 mil habitantes. Assim que recebeu o contrato de concessão de uso da terra, conseguiu acessar o crédito do Incra para melhorar a produção de subsistência e vender o excedente na feira da cidade.
“A gente mexe com o plantio de milho, mandioca, feijão e batata-doce. Também tenho minhas galinhas e meus bois. É pouco o meu gadinho, e eu nem quero mais porque a gente sabe que isso acaba com a terra. Então, com o recurso do Crédito Apoio Inicial e do Fomento Mulher, do Incra, consegui investir em um curral para eles e cercar o terreno. Também deu para garantir vacinas e tratamento quando os bichos precisam”, relata.

Ao olhar ao redor, ela percebe que outras mulheres também acessaram o crédito porque melhoraram suas propriedades: “Se eu fosse fazer sozinha o meu curral, não ia conseguir. E vi que muita gente também conseguiu cercas para colocar o gado e a tobata. É uma máquina para arar a terra, menos prejudicial que o trator, que revira a terra toda. E isso ajuda a gente a produzir mais para levar os alimentos para a feira de Mathias Lobato”.
A superintendente regional do Incra em Minas Gerais, Neila Maria Batista Afonso, observa de perto a transformação no entorno após o incremento das atividades produtivas e da rotina nas propriedades com a chegada dos recursos.
“A qualidade de vida muda da água para o vinho. Além do investimento na produção, as pessoas também aplicam recursos na melhoria da propriedade. E a renda circula não só nos assentamentos, mas também no município. É principalmente nas cidades menores que essa transformação fica mais visível, porque faz diferença. Com esse recurso, as famílias adquirem insumos, materiais de trabalho e fazem outras compras na cidade para desenvolver o projeto. Assim, há uma recirculação do dinheiro”, explica.
Protagonismo feminino no campo
A chance de administrar o investimento na própria produção também representa o poder de escolha. Segundo Neila Afonso, o objetivo do microcrédito direcionado é justamente dar mais autonomia às produtoras rurais.
“O Fomento Mulher visa estimular as trabalhadoras rurais a ter mais protagonismo na comunidade e não ficar na dependência do marido. Às vezes, ele quer mexer com gado, mas ela quer plantar hortaliça. Se esse recurso ficasse na mão dele, o projeto dele teria prioridade”, detalha.
O crédito permite também que a mulher não apenas inicie a própria produção, mas avance e incremente algo que ela já tem.
“Uma produção de mandioca, por exemplo, pode gerar derivados, como farinha, biscoito de polvilho e farofa temperada. Ela pode se unir a outras mulheres e criar uma cooperativa para fazer o beneficiamento e o empacotamento da mandioca, vender os derivados para supermercados ou para o programa de alimentação escolar. Assim, elas vão agregando mais valor aos subprodutos da mandioca e podem reinvestir na própria produção”, complementa.
A superintendente lembra que o projeto que recebe o recurso pode ser elaborado tanto individualmente quanto coletivamente. Nesse caso, as mulheres podem se organizar para criar uma cooperativa, com cada uma recebendo o valor do crédito e investindo juntas em uma fábrica.
Apesar do potencial produtivo, desafios estruturais ainda limitam o crescimento de muitas agricultoras. Dora já pensa em acessar outros créditos para solucionar um problema recorrente em sua produção.

“Um desafio que temos aqui é a questão da água. Não temos esse privilégio da irrigação, que poderia ajudar na produção. Hoje, no meu lote, eu tenho um poço artesiano. Então, se vier mais crédito, penso em ter mais um poço artesiano ou aprofundar o que eu já tenho. E, quem sabe, no futuro, conseguimos comprar as coisas para fazer a irrigação e ter produção o ano todo, sem depender só das épocas de chuva”, detalha.
Baixa inadimplência
As condições facilitadas de pagamento ajudam a explicar por que os índices de inadimplência entre as beneficiárias são baixos.
Com o Fomento Mulher, o valor é depositado à agricultora em conta bancária individual, com disponibilidade de cartão para saque e pagamento via débito. A beneficiária devolve apenas 10% desse valor após três anos. O desconto é de 90% sobre o saldo devedor atualizado (valor concedido + 0,5% ao ano).
Funciona assim: se ela recebe R$ 8 mil, o valor a ser pago ao Incra após três anos será de apenas R$ 812,10, em parcela única.
“No caso de Minas, a gente tem uma inadimplência bastante baixa. E, com o Desenrola Rural (programa do governo federal que facilita a renegociação de dívidas de agricultores familiares, assentados, quilombolas e pequenos produtores rurais, com descontos de até 96%), fomos os campeões de adesão”, diz Neila Afonso.
Demanda por microcrédito rural para mulheres em MG cresce mais de 240%
Com juros baixos e condições favoráveis de acesso e pagamento, o microcrédito rural tem sido cada vez mais procurado pelas produtoras mineiras. Para se ter uma ideia, o Pronaf Mulher, linha de crédito específica para agricultoras familiares operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), registrou aumento de 241% na demanda entre 2024 (R$ 556.644 aprovados) e 2025 (R$ 1,9 milhão), em Minas Gerais.
O Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), embora não tenha uma linha de crédito específica para mulheres, também tem alcançado recordes quando o assunto é fomentar a produção agropecuária. No ano passado, a instituição liberou R$ 2,47 bilhões para projetos do setor no Estado, o que representa pouco mais da metade de todos os desembolsos daquele ano.
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Uma das beneficiadas foi a advogada e produtora rural Marisa Malfer, de 38 anos, de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, que obteve o recurso em dezembro para investir em uma produção mais sustentável. Criadora de gado de leite, ela utilizou o crédito na plantação de milho para silagem, que serve de alimento para os bovinos, e também pretende vender o excedente da produção.
“A safra do milho é para o gado e, na safrinha, também produzo bastante para pagar os custos, vendendo o grão. Agora vou avaliar como será a produtividade. Usei o recurso apenas em biológicos e adubo orgânico para essa plantação. Se o crédito não tivesse saído, eu não teria conseguido pagar os compromissos que assumi no período do plantio”, comenta.

Além da aquisição dos biológicos, ela também utilizou o recurso para contratar dois vizinhos: “Consegui pagar, ainda, pela ajuda de dois vizinhos para fazer o acompanhamento e aplicar o adubo e os herbicidas”.
Vinda de uma família de agricultoras — a mãe e a avó —, Marisa pretende fazer novos plantios de milho ao longo do ano.
E essa é apenas uma das possibilidades de aplicação do microcrédito rural. Em muitas regiões, o recurso também ajuda produtoras a estruturar novos negócios, vender para o governo e abastecer políticas públicas, como a alimentação escolar, com produtos da agricultura familiar.
Agricultoras transformam crédito rural em comida nas escolas
Os impactos do microcrédito rural chegam bem mais longe do que as melhorias nas cozinhas de biscoiteiras ou nas fábricas de doces de cooperativas. Em muitos casos, os principais consumidores dos alimentos produzidos são alunos de escolas públicas do interior de Minas.
As produtoras rurais Cidélia Anunciação Gomes, de 54 anos, Maria José de Oliveira, de 59, e Maria Cardoso, de 58, conhecida como Clara, têm como foco o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que compra gêneros alimentícios de produtores locais para garantir refeições de qualidade para crianças e adolescentes.
Ao mesmo tempo em que garantem a própria subsistência e a de suas famílias, essas mulheres acabam participando de um ecossistema maior, que assegura comida de qualidade para estudantes da rede pública.
No Norte de Minas e na região do Jequitinhonha e Mucuri, essa engrenagem começa, em muitos casos, com uma decisão simples: formalizar o que antes era feito de maneira informal. Isso porque, para acessar o crédito, as famílias precisam estruturar a produção e fazer uma série de adequações sanitárias.

Apesar dos desafios iniciais para entrar no programa, que muitas vezes são resolvidos com o próprio recurso, a estrutura do PNAE é crucial para a manutenção de negócios familiares chefiados por mulheres. A política determina que pelo menos 30% dos recursos da alimentação escolar sejam destinados à agricultura familiar.
“A seleção é muito orgânica. Os produtores nos procuram querendo saber como organizar uma agroindústria, como legalizar a produção”, explica a extensionista de Bem-Estar Social II da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG) Márcia Helena Barbosa. “Muitas vezes, elas já produzem um bom produto e comercializam de forma informal”, completa.
PNAE como ponto de partida
Em muitos casos, é justamente a demanda da alimentação escolar que impulsiona essas transformações. Foi o que aconteceu na zona rural de Porteirinha, no Norte de Minas, onde Maria José de Oliveira já fornecia hortaliças quando surgiu a demanda por biscoitos no PNAE municipal. “Precisavam de alguém para fornecer biscoitos, porque não tinha ninguém fazendo. Eu disse: ‘Tudo bem, eu entrego’”, lembra a produtora.
A decisão exigiu adequação estrutural: “Não podia fazer de qualquer jeito, no fundo do quintal. Tinha que ter um cômodo separado da casa, todo organizado e dentro das normas”. Para isso, ela recorreu a uma das linhas de microcrédito do Banco do Nordeste, o Agroamigo, e hoje já soma 13 operações.
Segundo Márcia Barbosa, esse movimento é recorrente. “Mostramos editais anteriores, explicamos especificações, peso dos produtos e tipo de embalagem. Quando o produtor decide participar, auxiliamos na documentação”, explica. Em municípios menores, os próprios técnicos da Emater-MG elaboram os projetos de venda.
Crédito é fundamental para o desenvolvimento dos negócios
Em Jaíba, no Norte de Minas, o microcrédito foi decisivo para consolidar a agroindústria da Cooperativa dos Pequenos Produtores do Projeto Jaíba (Cooperjaíba), presidida por Cidélia Gomes. “Na verdade, a cooperativa foi criada para ajudar os produtores a comercializar a produção. Produzir é muito bom, a gente consegue, mas comercializar é a parte mais difícil”, afirma.
Criada em 1998, a cooperativa reúne 69 famílias. Sob a gestão de Cidélia há 16 anos, passou a fornecer para as redes estadual e municipal por meio do PNAE. No entanto, foi em 2020 que o carro-chefe da cooperativa, o doce de banana sem adição de açúcar, surgiu e revolucionou as vendas.
“Um dia, eu esqueci de colocar açúcar. E deu certo. Foi assim que surgiu o nosso doce de banana sem adição de açúcar, feito só com o açúcar natural da fruta”, lembra.
A validação técnica veio depois, com apoio especializado. Com o crédito, os cooperados conseguiram contratar um engenheiro de alimentos e embalar o doce de forma comercial.
A extensionista da Emater destaca que a assistência não se limita à burocracia: “Orientamos desde o plantio até o processamento na agroindústria, passando pela formalização e comercialização. O objetivo é melhorar a qualidade de vida e a renda”.

Histórias semelhantes se repetem em outras regiões do Estado. Em Nanuque, na região do Jequitinhonha e do Mucuri, Clara Cardoso também estruturou o negócio por meio do programa de microcrédito do Banco do Nordeste. Após prejuízos no comércio de roupas, decidiu investir na produção de biscoitos: “Comecei usando o dinheiro para comprar uma batedeira e um forno, porque antes eu batia a massa na mão mesmo. Agora tenho oito fornos, espremedeira e máquina de bater”.
Cliente do Agroamigo há mais de dez anos, ela transformou a pequena produção em uma agroindústria familiar. “Hoje, a renda que temos é muito maior que a aposentadoria do meu marido. Eu consigo pagar o empréstimo, pagar quem trabalha comigo e ainda sobra para a gente”, comemora.
Além do mercado, o crédito amplia a capacidade produtiva. Mais de 30 cooperados da Cooperjaíba acessam o Agroamigo. “Tem gente que comprou tratorito, estruturou horta. Muitos têm contrato com escola e prefeitura, então o crédito ajuda a melhorar a qualidade do produto. Inclusive, muitas mulheres dizem que acessar esse crédito mudou a vida delas”, afirma Cidélia.
Em 2025, o Banco do Nordeste realizou 61,7 mil operações do Agroamigo em Minas Gerais, somando R$ 833 milhões, uma alta de 12,7% no valor contratado em relação a 2024. Na linha Quintais Produtivos, criada em 2025 e exclusiva para mulheres, foram 4.759 operações, totalizando R$ 93,4 milhões no Estado.
Crédito e conhecimento são aliados para a emancipação feminina
A extensionista da Emater Márcia Barbosa acredita que o impacto vai além dos números. “Comecei a perceber que muitas mulheres tinham produtos excelentes, mas não valorizavam o próprio trabalho”. A partir de círculos de mulheres e capacitações, esse cenário foi mudando com o tempo, gerando, além de renda, fortalecimento pessoal.
“Para mim, funciona assim: primeiro a pessoa se conhece, depois se aceita e, então, se ama. E, quando ela se ama, se permite buscar mais da vida”, reflete.

Maria José traduz essa mudança em rotina: “Melhorou, sim. É muito trabalho e muita responsabilidade, mas mudou minha vida”. A biscoiteira trabalha dentro da própria casa e consegue conciliar a produção com o cuidado dos pais idosos. “Se eu tivesse que sair para trabalhar fora, não conseguiria”, diz.
Para Cidélia, o resultado está diretamente relacionado à organização coletiva e ao acesso às políticas públicas. “A cooperativa vende e o dinheiro volta para o produtor. Aí, eles investem em irrigação, reformam a casa e melhoram a propriedade”.
Márcia Barbosa relata ter acompanhado transformações semelhantes. “Já vi agricultor pagar faculdade particular de medicina para o filho com renda que inclui vendas para o PNAE. Já vi mulheres reformarem a cozinha dos sonhos”, conclui. Histórias que mostram como crédito, assistência técnica e organização coletiva vêm transformando a realidade de mulheres do campo em Minas Gerais.
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